terça-feira, 27 de outubro de 2015

Juros no rotativo do cartão superam 414% ao ano

Os juros cobrados para financiamento de compras no rotativo do cartão de crédito bateu recorde em setembro e superou 414% ao ano. Assim, uma dívida fica cinco vezes maior do que a original — um crédito considerado proibitivo pelo Banco Central, que divulgou nesta terça-feira dados referentes de operações de crédito em setembro. A alta foi de nada menos que 10,8 pontos percentuais somente no mês passado.

Apesar da queda de algumas taxas, como a do crédito pessoal e a do consignado, outras modalidades insistiram em ficar ainda mais caras. Foi o caso do cheque especial: os juros subiram de 253,2% ao ano para 263,7% ao ano. É a taxa maior já registrada nos últimos 20 anos.
Mesmo com o custo do dinheiro maior porque o BC aumentou os juros básicos, os bancos reduziram seus ganhos para fazer frente ao cenário econômico de crise econômica e baixa confiança de famílias e empresas. De acordo com o Banco Central, as instituições financeiras diminuíram os chamados spreads bancários (a diferença entre o custo do dinheiro para as instituições e o valor que elas repassam para os clientes), em 0,3 ponto percentual, na média, para 18,5 pontos percentuais em setembro. 

Já para as famílias, os bancos encareceram, em média, os financiamentos com recursos livres em 47,2 pontos percentuais (0,2 ponto percentual menos que no mês anterior). É nesse percentual que está o lucro das instituições.

O corte médio nos spreads não foi suficiente para reverter as altas do passado e nem o custo maior para os clientes. Por isso, os juros cobrados em empréstimos com recursos livres para as famílias chegou a nada menos que 62,3% ao ano: os maiores desde março de 2011, quando o BC passou a registrar os dados em nova tecnologia.

O corte dos spreads bancários vai na contramão da política de aperto das condições de crédito feita pelo Banco Central para conter a inflação e alivia um pouco o custo financeiro no país. Por outro lado, reflete a realidade do setor bancário que tem de lidar com clientes contraídos para tomar endividamento por causa da crise econômica.

INADIMPLÊNCIA CRESCE
Por causa dessa situação, a inadimplência das famílias aumentou em setembro pelo terceiro mês seguido. Segundo o Banco Central, a taxa de calote no país, em empréstimos com recursos livres aumentou 0,1 ponto percentual e chegou 5,7%. É o patamar mais alto em dois anos.

Isso fez com o que brasileiro tentasse colocar as contas em dia. Nunca foram renegociados tantos empréstimos. A modalidade cresceu 1,7% no mês passado. Atualmente, as famílias pagam renegociações que somam R$ 24,8 bilhões. Esse saldo cresceu nada menos que 14,1% nos últimos 12 meses.

— É normal que quando o cenário não esteja favorável, aumente a renegociação. Vemos um movimento significativo neste ano. É um movimento natural neste contexto de ciclo econômico — explicou Túlio Maciel, chefe do departamento econômico do BC.
Em julho — dado defasado que o Banco Central apresentou nesta terça-feira — o endividamento das famílias subiu 0,1 ponto percentual para 46%. 

No entanto, quando é descontado o financiamento da casa própria (considerado um investimento) houve uma queda de 0,1 ponto percentual para 27,1%. Isso reflete, segundo o BC, uma retração da demanda por consumo por causa da crise. O endividamento é a percentagem da dívida em relação à renda anual.

Já o comprometimento da dívida, ou seja, o peso da dívida no orçamento do mês, teve alta nos dois quesitos. No total, subiu 0,1 ponto percentual para 22,2%. Sem levar o crédito imobiliário em consideração, o comprometimento também aumentou 0,1 ponto percentual e chegou a 19,8%.

— A evolução da renda e o custo do crédito mais alto refletem mais no comprometimento do que no endividamento das famílias — ponderou Maciel.
Os dados do BC comprovam o que os bancos já sentiram há algum tempo: as pessoas físicas estão mais retraídas na hora de fazer novas dívidas. As concessões de empréstimos caíram 1,6% no mês passado. Foram contratados R$ 158 bilhões: o valor mais baixo desde fevereiro.

— Há cautela das famílias em termo de endividamento e comprometimento de renda. O endividamento para consumo mostra redução para este ano. O encarecimento do crédito também influencia — disse Maciel, completando: — A parte da demanda é a mais presente.

CASA PRÓPRIA MAIS DIFÍCIL
O cenário tem influenciado também a compra da casa própria. O fechamento de novos contratos continuou em queda. E pela primeira em dois anos, o saldo do financiamento de imóveis para pessoas físicas com taxas de mercado (aquelas que não são subsidiadas como as do Minha Casa Minha Vida) caiu. Diminuiu 0,5 ponto percentual e está em R$ 63,1 bilhões. Já os financiamentos com subsídios continuaram a crescer no mês, 0,9%, e chegaram a R$ 422,4 bilhões.
O Globo

Nenhum comentário:

Postar um comentário