segunda-feira, 21 de março de 2016

Estado avança com projetos aos portadores da Síndrome de Down

A Escola Estadual Yolanda Martins, no bairro do Marco, em Belém, é uma das cinco existentes no Estado especializadas no atendimento aos portadores de necessidades especiais. Referência na educação de crianças e adultos com deficiência intelectual, a instituição atende hoje 356 alunos. Max Silva, 31 anos, portador da Síndrome de Down, é um deles. Com o apoio dos professores, ele e um grupo de colegas de classe participam de um projeto que utiliza a música como instrumento pedagógico e  já produz resultados. O mais esperado deles é a a gravação do primeiro CD da banda Comando Nuclear, da qual fazem parte Max e outros estudantes da Yolanda Martins.

Os alunos utilizam contêineres de lixo como instrumentos e já se apresentam em outras instituições de ensino especializadas no atendimento à pessoa com deficiência. "Gosto muito daqui, a única hora que eu não gosto é quando tenho que voltar para casa”, diz Max, autor das oito músicas que farão parte do CD. Há seis anos matriculado na escola, ele é um dos mais assíduos nas aulas.

A Constituição Federal, em seu artigo 208, que trata da Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos, estabelece que é dever do Estado garantir atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente no sistema regular de ensino, e a Lei Federal número 13.146, de 6 de julho de 2015, preconiza que todas as instituições de ensino são obrigadas a ter alunos portadores de necessidades especiais. 

Nesta segunda-feira, 21 de março, instituído o Dia internacional da Síndrome de Down, o Pará comemora avanços importantes na educação inclusiva, a cargo, no âmbito do Executivo Estadual, da Coordenadoria de Educação Especial da Secretaria de Estado de Educação (Seduc). A COEES trabalha na assessoria, administração e acompanhamento das crianças que apresentam algum tipo de deficiência nas escolas da rede estadual. 

Hoje, aproximadamente 90% delas oferecem esse tipo de atendimento. Em 2015, a rede estadual de ensino atendeu 10.824 alunos especiais, trabalho este desenvolvido por mais de 1.700 professores concursados, com especialização na área.

As escolas podem solicitar via Ministério da Educação (MEC) as salas de recursos multifuncionais, que disponibilizam mobiliário e material pedagógico específico para classes especiais, que até 2015 estavam presentes em mais de 630 estabelecimentos de ensino no Pará. “O Estado está lutando há muito tempo por esse processo de inclusão e já registramos muitos avanços. 

Hoje, muitas escolas particulares nos procuram pedindo apoio principalmente sentido de fornecer profissionais capacitados na área e de garantir a estruturação dos espaços voltados para atendimento dos portadores da Síndrome de Down”, diz Camila Vallinoto, coordenadora de Educação Especial da Seduc. 

Os serviços da Coordenação de Educação Especial são inteiramente gratuitos e prevêm o acompanhamento desses indivíduos desde a infância até a vida adulta, quando são encaminhados ao mercado de trabalho. 

Os pais ou responsáveis interessados em matricular os filhos em alguma das unidades especializadas ou estabelecimentos que oferecem esse serviço devem procurar a COEES, que funciona na avenida Almirante Barroso, nº 1.765, entre as travessas Barão do Triunfo e Angustura. 

Ana Bisi dirige a Escola Yolanda Martins, que trabalha com atividades especializadas e também com a Educação de Jovens e Adultos (EJA), para quem ainda não está na educação regular. “Nos últimos dois anos, tivemos 95 alunos especiais inseridos no mercado de trabalho. 

Muitas empresas nos procuram em busca de indicações de pessoas com necessidades especiais, por conta da Lei nº 7853, de 24 de Outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Nós procuramos fazer não apenas esse encaminhamento, como também as acompanhamos durante todo o processo, até que elas estejam devidamente encaixadas no mercado. 

Não basta apenas direcioná-los, é preciso saber como eles estão sendo recebidos pelos empregadores, se estas empresas estão proporcionando um ambiente confortável e seguro para eles, se eles estão tendo seus direitos respeitados”, explica a diretora.

NEDETA - O Núcleo de Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva e Acessibilidade (Nedeta), da Universidade Estadual do Pará (Uepa) desenvolve quatro aplicativos a partir de um trabalho feito com 70 crianças e adolescentes que apresentam algum tipo de deficiência e que são atendidos diariamente pela Unidade de Ensino e Assistência de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da instituição. O objetivo é estimular o aprendizado desses pacientes, especialmente os que tem deficiência motora.

O primeiro dos aplicativos em teste a ser elaborado foi o Desenvolve, software de ensino que tem funções de acessibilidade, voltado a crianças com paralisia cerebral. Criado para ser utilizado em CPUs, ele passou recentemente a ser aplicado em tablets e está em fase de aperfeiçoamento. Outro aplicativo em desenvolvimento é o Pro Comunique, elaborado em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), para o aprendizado de autistas. 

Já o Vox Lapps, aplicativo para androids, é destinado a pessoas com deficiência na fala e ainda está em fase de testes pelos terapeutas educacionais da Uepa. Por último, o aplicativo Brincando com a Leitura, disponível para tablets, foi criado para auxiliar alunos com dislexia no ensino da leitura e da escrita. Ele permite o processo de alfabetização usando o método fônico, acessado por meio de bluetooth. 

A equipe do Nedeta é composta por terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e psicólogos, que comprovam a evolução dos pacientes com o uso das tecnologias. Um dos exemplos é Gustavo Rodrigues. Com 14 anos e portador da Síndrome de Down, ele é atendido pelo Núcleo há seis anos, período em que vem sendo submetido aos testes com os aplicativos. O tratamento evoluiu e hoje Gustavo utiliza o Xbox, um vídeogame que estimula a coordenação motora, fazendo o usuário simular movimentos que vê na tela.

“A criança com síndrome de Down tem pouco tônus muscular, então ela precisa fazer exercícios físicos que a auxiliem nessa locomoção e proporcionam gasto de energia”, explica Tainá Oliveira, acadêmica de Terapia Ocupacional. O que parece ser uma simples brincadeira trouxe benefícios práticos na rotina do menino. 

‘Hoje meu filho se comunica melhor, já conseguimos entender o que ele fala e o rendimento escolar dele é outro. Considero o atendimento da Uepa e do Estado fundamental para essa mudança, pois aqui ele tem recursos que nao dispõe na escola”, comemora Adélia Rodrigues, mãe de Gustavo.

EQUOTERAPIA - O trabalho de equoterapia da Polícia Militar do Pará existe há 23 anos e atende mais de 90 crianças com problemas de paralisia cerebral, autismo e deficiência. Destas, oito têm Síndrome de Down. Uma equipe de 20 profissionais, entre fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas e psicólogos, atua no trabalho, que envolve o uso de cavalos para ajudar no tratamento dessas crianças. 

O serviço é gratuito e para inscrever os filhos, os pais precisam apresentar um laudo que comprovem a deficiência. Depois de passar por uma entrevista eles são incluídos em uma lista de espera. 

O tratamento dura cerca de dois anos e as sessões de equoterapia são realizadas uma vez na semana, com duração de 30 minutos.
“Na equoterapia, o cavalo é o principal instrumento da terapia. O princípio da utilização do cavalo é o movimento tridimensional que ele promove na criança com Síndrome de Down. 

Esse movimento promove ajustes posturais, ajustes tônicos, estimula a coordenação motora, melhora o equilíbrio e a autoestima do paciente”, explica a tenente Patrícia Brandão, terapeuta ocupacional.

O programa de equoterapia é dividido em três subprogramas. A Hipoterapia, que envolve os praticantes iniciantes; Educação e Reeducação, que é a fase complementar da primeira e prepara o paciente para a última etapa, na qual apenas alguns praticantes são selecionados; e o Esportivo, onde há o treinamento para participação de competições Paralímpicas.

Um dos talentos revelados no programa é Bruno Lins, 31 anos, praticante da equoterapia e atleta paralímpico desde 2007, ano em que participou dos Jogos Universitários Paralímpicos (JUP) em São Paulo. 

A comitiva paraense precisava de um atleta com paralisia cerebral e que fosse universitário. Bruno era o único com estas características. Em uma das atividades desenvolvidas pelo Centro Interdisciplinar de Equoterapia (CIEC) ele foi descoberto, e do convite ao embarque passaram-se apenas dois dias.

E foi a partir daí, por meio de uma parceria entre o Centro Interdisciplinar de Equoterapia (CIEC) e a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Seel), que lhe garantiu uma bolsa mensal, que ele iniciou a prática do atletismo e hipismo adaptado. Há mais de 10 anos ele é treinado por Suzete Montalvão, no Estádio Olímpico do Pará. 

Hoje contabiliza mais de 100 medalhas e costuma viajar até três vezes ao ano para competir. “Eu sou o único atleta com paralisia cerebral que representa o Pará em competições de atletismo", orgulha-se.

Até completar 10 anos Bruno sequer andava. Foi um processo lento, uma história de superação que envolveu toda a família. A mãe, Socorro Alencar, conta que a primeira vez que ele firmou o pescoço e sentou foi em cima de um cavalo. “O cavalo é o alicerce do Bruno. 

A trajetória dele é incrível, para quem não andava nada e hoje é um velocista, ele é um exemplo de superação. Eu mesma vivia em função dele, que hoje treina, trabalha e faz faculdade de Educação Física, de forma totalmente independente”, conta.

Aproveitando o ano das Olimpíadas, no Rio, o serviço de equoterapia da PM quer estimular ainda mais os pacientes, trazendo de volta as competições internas, como forma de promover a inclusão dos portadores de Síndrome de Down também por meio do esporte.
Syanne Neno - Secretaria de Estado de Comunicação
Agência Pará de Notícias

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