segunda-feira, 28 de março de 2016

Polos de aquicultura incrementam produção de pescado no Pará

A cozinheira Socorro Ferreira, 58 anos, aquece o óleo enquanto prepara suas famosas costelas de tambaqui. As peças fartas de carne branca e crocante, acompanhadas de quibes de pirarucu, são uma novidade em regiões como o sudeste paraense, onde a carne bovina predomina tradicionalmente. Quem prova, repete e pergunta logo “de onde vem esse peixe”? A resposta está nos polos de aquicultura que se espalham no Estado com o apoio das gestões municipais e do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) e Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).

Só no município de Paragominas é aguardado o faturamento de mais de R$ 2,5 milhões na produção de peixe em cativeiro em 2015. Segundo estudo contratado pelo município, houve um crescimento de mais de 70% nos lucros do negócio desde 2013. “Sem dúvida Paragominas é um dos nossos polos de piscicultura mais promissores do Estado”, afirma o secretário Hildegardo Nunes, Sedap.

Para que este e outros polos de criação possam se desenvolver, fortalecendo as economias de suas regiões e criando opções sustentáveis para a criação e comercialização de peixes, a Sedap tem investido em capacitações para pescadores e aquicultores em todo o Estado. Em julho de 2015 a secretaria fez uma capacitação em Concórdia do Pará, nordeste do Estado, para produtores rurais que já atuam na piscicultura e àqueles que pretendem entrar na atividade. Assim como ocorre em outros municípios, a Sedap trabalha com técnicos das prefeituras para que eles possam se tornar propagadores deste conhecimento nas regiões vizinhas.

“Em Paragominas temos uma associação de piscicultores relativamente organizados, inclusive com recursos financeiros próprios. Hoje eles estão produzindo muito mais do que produziam no início, porque aliaram a vontade que eles tinham com os empreendimentos implantados com as técnicas demonstradas por nós. Fizemos isso em Tailândia, Goianésia do Pará e Novo Repartimento”, explica o diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura da Sedap, Ediano Sandes.

No caso da pesca tradicional, as capacitações são voltadas principalmente para a conservação e qualidade do pescado vendido, seja para o cliente direto ou para um atravessador. “Na verdade, o que a gente ensina aos pescadores são técnicas de conservação e manipulação do pescado a bordo para evitar o desperdício, higienização, agregação de valor ao pescado, tratamento de salga, como fazer a defumação e é exatamente aí que o trabalho da organização social para locais como o Marajó e a região de Bragança entra para agregar valor”, diz o diretor.

Além dos cursos, também em 2015, como parte do programa Pacto pela Produção e Emprego, foi publicado o Decreto n° 1.390, de 3 de setembro de 2015, estabelecendo uma série de benefícios fiscais para o setor de aquicultura no Pará. O Pará se tornou o primeiro Estado brasileiro a ter um capítulo específico para a atividade aquícola dentro do Regulamento de ICMS (RICMS-PA). Insumos, maquinários e até mesmo a ração terão o custo reduzido, impactando positivamente nos custos da produção do pescado.

Cadeia – Bem perto do centro de Paragominas, seguindo uma das várias vicinais da região, o empresário Amilton Caliman gerencia há quatro anos um dos empreendimentos de piscicultura do município. Em seus tanques, espécies como pintados, tambaquis, tambacus, tambatingas e pirarucus se desenvolvem chegando ao peso ideal em poucos meses. “Paragominas é um município que vem se destacando em tudo. O boi, a madeira, o grão e agora a piscicultura, que é um dos futuros do Pará e do país. Este é um alimento barato, que produz rápido e com um custo mais baixo”, diz Amilton, que também é presidente da Associação Paragominense de Aquicultura (APA). Com dois anos de criação, a APA já tem 42 integrantes.

Os empreendimentos estão ficando cada vez mais organizados e focados na qualidade técnica para a produção de um pescado cada vez melhor. A média de produção é de um quilo e meio de peixe a cada metro quadrado nos tanques. Levando em consideração o tempo médio de 45 a 60 dias para o desenvolvimento dos alevinos em peixes prontos para o consumo, a piscicultura tem um grande potencial de produção de proteína animal em áreas menores diminuindo o impacto ambiental em relação a outros tipos de culturas, além de possibilitar a recuperação da fauna natural dos rios da região.

Em uma das áreas da propriedade, à beira do tanque, um trator arremessa a ração por toda a borda da área para alimentar os peixes da espécie “pintado” de maneira igual. O método ajuda os animais a atingir peso semelhante, evitando desproporções no tanque. Os peixes de bigode longo e fino se amontoam de boca aberta fora d’água mostrando a fartura de produção em um único tanque. Segundo o criador, um dos tanques pode render de 30 a 40 toneladas de pintado após sete meses de engorda.

Só no mercado local, Paragominas consome cerca de oito toneladas de peixe por semana. Em 2015 a produção chegou a 380 toneladas de pescado. Apesar da grande demanda e da produção crescente, o município ainda não tem uma unidade de beneficiamento para a filetagem e exportação do pescado, que precisa ser vendido e transportado por empresas atravessadoras até as indústrias.

Mercados - Até pouco tempo, a preferência local era o sabor dos peixes de água salgada, além dos tradicionais pescada amarela, dourada e filhote. Agora, aos poucos, a população vai conhecendo o sabor e as possibilidades dos peixes cultivados na região. Socorro Ferreira tem uma casa de caldos em Paragominas. 

Este ano ela resolveu participar de um curso oferecido pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a APA para preparar pratos que usem principalmente o tambaqui e o pirarucu. As receitas foram ficando cada vez mais conhecidas e o empreendimento cresceu. Para completar, o cunhado, Walney Rocha, é um pequeno aquicultor que fornece os peixes que se transformam nas disputadas receitas, como as costelas de tambaqui e os quibes de pirarucu.

“O curso abriu muitas possibilidades e agora o restaurante está crescendo ainda mais. Acho que a piscicultura está ajudando muito a nossa região, e a gente percebe que em alguns lugares as pessoas estão substituindo a criação de boi por peixe, que é algo mais barato. Com um terreno pequeno você consegue começar uma criação, e o que faltava é o que está acontecendo agora: o incentivo do governo, prefeitura e da APA ao pequeno produtor para começar a fazer os seus tanques”, diz Socorro.

Para a gestão municipal, a aquicultura é um negócio recente, que, no entanto, já está gerando resultados significativos e faz parte dos projetos de crescimento não apenas na produção, mas também em toda a cadeia do pescado. “Este é um mercado que está se desenvolvendo agora, mas com um grande potencial, por isso a gestão municipal e o Governo do Estado investem para que estes produtores tenham a estrutura e o conhecimento necessário para não apenas produzir o pescado, mas para que possamos também beneficiar este peixe aqui”, explica o prefeito de Paragominas, Paulo Tocantins.

A gestão municipal e as demais associações ligadas à produção rural já colaboraram para a implantação das duas primeiras indústrias de ração para piscicultura, que usa os próprios grãos da região. “Em breve trabalharemos juntos a APA e demais grupos para implantação da primeira indústria de beneficiamento deste pescado, criando toda uma cadeia de produção dentro do próprio município”, diz o prefeito.





Beneficiamento - Ao sair do tanque o peixe precisa ser conservado e armazenado corretamente nas devidas condições exigidas pelo Ministério da Agricultura, que no Pará são fiscalizadas pela Agência de Defesa Agropecuária (Adepara). Um exemplo de indústria de beneficiamento pode ser encontrado no distrito de Outeiro, em Belém. Com dois anos de atividade, a Outeiro Pescados é uma empresa de beneficiamento de várias espécies, alguns muito populares, como o tambaqui e outros que precisam de um processo especializado, como é o caso do pirarucu.

Dentro da indústria, funcionários uniformizados e ambientes completamente higienizados. Todo o pescado é tratado, evitando qualquer contaminação, variações de temperatura desnecessárias ou outra ação que interfira na qualidade da carne beneficiada. A seleção do peixe começa na hora da compra com o fornecedor e termina na análise da última bandeja que será armazenada em locais refrigerados ou encaminhados para os caminhões frigoríficos da própria indústria.

“Temos um médico veterinário fiscal da Adepará e outro que é funcionário da indústria. Ele é o responsável técnico do controle de qualidade. A gente preza pela segurança alimentar, pois é essencial ter uma empresa registrada para colocar todo o controle, desde a recepção do pescado até o processamento, o descarte, armazenagem e expedição. Não é fácil manter uma empresa, mesmo pequena, totalmente legalizada, mas compensa pela qualidade do produto que oferecemos quando comparada a outros produtos que estão na informalidade”, diz o dono da indústria, Francisco Bastos.

“Quando um produto como esse sai rotulado, identificado e certificado pela Adepará, tem-se um produto de qualidade para o consumidor. Significa que houve uma análise deste produto desde a seleção do pescado até a venda, com garantia sanitária, preservando a população de qualquer alteração ou problema de saúde, como infecções alimentares e infecções intestinais”, explica o diretor de Inspeção e Defesa Animal da Adepará, Jefferson Oliveira.
Diego Andrade - Secretaria de Estado de Comunicação
Agência Pará de Notícias

Nenhum comentário:

Postar um comentário