terça-feira, 19 de abril de 2016

Educação é pilar para a manutenção da cultura e das tradições indígenas

Quem ouve a índia Concita Guaxipiguara Sompre, da etnia Gavião, se expressar na língua Kyikateje, não imagina que esse aprendizado tenha vindo de outra forma senão das tradições orais de seu povo, passadas de pai para filho. No entanto, ele é fruto de um trabalho de resgate cultural proporcionado por meio da edução voltada aos indígenas. Concita, assim como várias pessoas de sua comunidade, cresceu falando a Língua Portuguesa e só quando atingiu a vida adulta conseguiu recuperar a fluência na língua materna de seu povo. Por isso ela resolveu fazer do seu Trabalho de Conclusão do Curso em Licenciatura Intercultural pela Universidade do Estado do Pará (Uepa), um estudo sobre o resgate da língua indígena. “A nossa língua está caminhando para o fim, apesar de algumas pessoas ainda a preservarem. Os jovens até 25 anos, por exemplo, não falam mais a língua mãe”, relata.

A jovem integra a turma de 72 índios das etnias Tembé, Gavião e Suruí Aikewara que terá a cerimônia de formatura realizada nesta terça-feira, 19, no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, com a presença do governador Simão Jatene.

Diante da oportunidade de ver a bisneta Paramre Ampeiti receber a gradução no ensino superior justamente em um curso voltado à manutenção e defesa da cultura indígena, a anciã Ronore Kapreré, uma das poucas da etnia Gavião que ainda fala a língua Kykateje, não esconde a emoção. “Meu filho foi um dos que lutou por essa conquista”, relembra, referindo-se à luta empreendida pelo pai de Paramre, para que o curso fosse implantado.

Como homenagem por tudo o que fez pela família, Ronore foi escolhida pela bisneta como paraninfa durante a formatura da primeira turma do curso de Licenciatura Intercultural Indígena, cuja cerimônia reúne, na manhã desta terça-feira, 19, outros 72 alunos indígenas de diferentes etnias no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia. “Ela que me criou, não poderia deixá-la de fora”, explica.

Sempre interessado no assunto educação, Winurru Suruí, da etnia Aikewara, acredita que a cultura indígena pode ser preservada se a nova geração de índios a entender e conhecer. "É preciso criar estudos específicos e diferenciados, voltados para o que diz a formação e tradição indígena", diz. Winurru acredita que esta primeira turma de professores indígenas da Uepa vai abrir novas expectativas e inspirar outros jovens das várias etnias existentes no estado.

Nascida em Castanhal, no nordeste paraense, Ana Paula Souza da Silva hoje mora em Bom Jesus do Tocantins, no oeste do estado, mais precisamente na aldeia Gavião. Casada com um índio da etnia, ela resolveu incorporar as raízes culturais desse grupo e, pela sua inteira adaptação já trabalha na educação infantil oferecida às crianças da comunidade. “Agregar mais conhecimentos sobre este povo vai me proporcionar melhor embasamento para usar na sala de aula”, acredita.

Este 19 de abril, em que se comemora o Dia do Índio, não será apenas mais uma data festiva no calendário. Pelo menos não para os concluintes da Licenciatura Intercultural Indígena da Uepa. A formação veio após quatro anos de um trabalho intenso de resgate e valorização dessa cultura.  “Eles chegaram à universidade e são merecedores da conquista. Hoje temos professores indígenas, com saberes indígenas e científicos, aptos a atuarem tanto nas aldeias como em qualquer instituição de ensino”, exalta Joelma Alencar, coordenadora do curso. 

A solenidade de formatura será adaptada às tradições da cultura indígena e cada povo terá espaço para as suas manifestações. Os graduandos receberão os certificados com o corpo pintado e o cocar, somados à tradicional beca. O cocar só será substituído pelo capelo no momento em que o reitor da Uepa, Juarez Quaresma, os chamar à outorga. A execução do hino nacional também terá adaptações e será cantado nas línguas Tupi e Jé. A cerimônia será encerrada com danças.
Bianca Teixeira - Secretaria de Estado de Comunicação
Agência Pará de Notícias

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