segunda-feira, 20 de junho de 2016

Estado reforça o incentivo à doação de órgãos para garantir manutenção de transplantes

 Solange Garcia, 43 anos, se considera uma mulher de sorte. A servidora pública, que nasceu com um único rim, mal formado, precisava de um transplante e há sete anos ganhou vida nova sem nem mesmo precisar entrar na fila para receber o órgão. Veio justamente do pai a tão esperada compatibilidade. Desde então, faz acompanhamento semanal no Hospital Ophir Loyola e leva uma vida normal. Mas Solange sabe que é uma exceção na estatística das pessoas que precisam da doação de órgãos. “Eu me sensibilizo muito com a causa porque passei a ter contato direto com pacientes que, como eu um dia, esperam por um rim para ter uma vida normal, assim como qualquer pessoa. E pela ausência dele precisam fazer sessões permanentes de hemodiálise. Acredito que a doação de órgãos deva ser incentivada dentro da própria família”, defendeu.

Chefe do serviço de transplante renal do Ophir Loyola, o médico Ricardo Tuma revela que em quase 15 anos de existência do setor no hospital, quase 600 transplantes de rim foram realizados entre doadores vivos e falecidos. “Os bons resultados que temos hoje são equivalentes aos de qualquer centro de transplante do Brasil. Mas o que ainda é tímida é a oferta de rins. A cultura da doação precisa ser mais estimulada no estado”, disse o coordenador dos transplantes. Até abril deste ano, 432 paraenses ainda esperavam por um rim.

Córnea – A Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO), em atividade no Pará desde 1988, também registrou uma acentuada queda na doação de córneas. No Pará, 1.085 pessoas estão na fila para o transplante de córnea, consequência de uma redução gradativa e significativa na oferta do órgão nos últimos anos. Em 2013, foram 238 doadores; em 2014 foram 212 e em 2015, apenas 182. A média de espera na fila pelo transplante de córnea costuma ser de quatro anos.

Foi esse o tempo que levou para o consultor de vendas Jeferson Silva ser chamado pela Central de Transplante e se submeter à cirurgia, que lhe devolveu a visão, quase perfeita, no olho esquerdo. Jeferson tem ceratocone nos dois olhos, uma doença degenerativa da córnea que leva o portador à perda progressiva da visão. 

O paciente agora aguarda pela córnea que lhe restabelecerá a visão do olho direito, além de uma melhor qualidade de vida. “Além da visão prejudicada, o ceratocone causa muita sensibilidade à luz. Nem assistir aos jogos do meu time, à noite, eu posso, por causa dos refletores”, lamenta o consultor.

O drama da espera por uma córnea também é vivido pela jornalista S.N, portadora do ceratocone. “Todos os dias tenho medo de abrir os olhos ao acordar por medo de perceber que estou enxergando ainda menos. É como se eu disputasse uma corrida contra o tempo”.

No estado, os hospitais que realizam transplante de rins são o Regional de Redenção, que mantém o serviço desde 2012 e até o começo deste ano somava 39 cirurgias feitas com sucesso, e em Belém, o Ophir Loyola e o Saúde da Mulher, em Belém. Já o transplante de córneas pode ser feito, pela rede pública, nos hospitais Ophir Loyola e Betina Ferro, além da Clínica Cinthia Charone, na capital, e ainda na Clínica Nívia Saldanha, em Santarém. Pela rede privada, o procedimento cirúrgico pode ser feito em mais nove clínicas de Belém.

Até abril deste ano já foram realizados 18 transplantes de rins e 51 de córnea em todo o estado. O Banco de Olhos do Hospital Ophir Loyola funciona 24 horas com equipes de plantão prontas para se deslocar até os hospitais onde estão os doadores, fazer a retirada do tecido e transportá-lo até o banco de órgãos, onde as córneas podem ser mantidas por até 14 horas  para que sejam transplantadas.

Como doar - A doação de rins pode ser feita tanto entre pacientes intervivos ou, no caso de paciente que tenha vindo à óbito, diante da comprovação de morte encefálica. No caso da córnea, todo indivíduo que morre torna-se um doador em potencial, exceto nos óbitos provocados por hepatite, infecção generalizada e HIV. Pessoas idosas ou com câncer também podem doar córneas, exceto nos casos de câncer hematológico.

O procedimento da captação de órgãos pode ser feito em qualquer hospital de Belém. Basta que um familiar do doador que, em vida, tiver autorizado o procedimento, entre em contato com a Central de Transplantes por meio do celular 98115-2941 (24 horas) e dos telefones fixos 3223-8168 e 3244-9692, ou ainda para o Banco de Olhos do Hospital Ophir Loyola, pelos números 3265-6759 ou 98886-8159. Qualquer pessoa maior de idade pode ser doador, desde que sua família autorize.

O potencial doador precisa estar internado em uma Unidade de Terapia Intensiva ou urgência, mantido com equipamentos e medicamentos de suporte à vida. A doação de córneas, por sua vez, pode decorrer de qualquer serviço de saúde, visto que o órgão pode ser retirado até seis horas depois do coração do paciente ter parado.

O trabalho de captação funciona através de equipes da Organização de Procura de Órgãos que funcionam 24 horas no Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém, e no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência e Pronto Socorro Mario Pinotti, em Belém. 

Nesses locais, as equipes entram em contato pessoalmente com os familiares dos pacientes mortos para fazer a abordagem. As OPOs foram implantadas em parceria com o Ministério da Saúde, que é responsável por parte da remuneração desses profissionais - médicos, enfermeiros e assistentes sociais. Em breve, outros municípios do estado devem receber os serviços da Organização de Procura de Órgãos.

Tabus - Apesar da estrutura oferecida pelo Estado e da grande demanda, a autorização da doação de órgãos ainda esbarra em muitos problemas. Um deles é a falsa crença que há mutilação do corpo após a retirada do órgão ou tecido, o que não corresponde à realidade. No caso das córneas, por exemplo, ela é retirada tal qual uma lente de contato. Depois do procedimento, não é possível perceber nenhuma alteração física nos olhos do paciente doador.

“A maioria das religiões já aceita a doação de órgãos. O problema é realmente cultural, de foro emocional. Normalmente os familiares preferem não mexer no corpo do ente querido, que acaba de falecer. Mas precisamos trabalhar a cultura da doação junto à sociedade a partir da informação, do esclarecimento. Os próprios médicos podem conversar com as famílias e, com delicadeza, desmistificar algumas questões”, afirma Ana Beltrão, coordenadora da Central de Transplantes.

As pessoas que aguardam por um transplante podem acompanhar diariamente sua posição na fila de espera através do site www.snt.saude.gov.br.
Por Syanne Neno - Agência Pará

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