segunda-feira, 20 de junho de 2016

Pará é único do Norte a oferecer reconstrução e alongamento de ossos

Jorge Lucas Fernandes de Andrade, 20 anos, quase teve parte dos sonhos amputados. Sem poder andar, após ser vítima de um grave acidente de moto em Paragominas, no nordeste paraense, há seis meses ele luta para voltar à vida normal, se revezando entre o abrigo da família e temporadas em leitos de hospitais. O jovem sofre com os desdobramentos de uma fatalidade que poderia ter lhe tirado parte da perna direita.

Parte dos ossos, esmagados pelo impacto com um carro num cruzamento, havia sido perdida. Na manhã da última terça-feira (14), porém, essa luta ganhou um novo capítulo. O jovem foi submetido à primeira cirurgia de reconstrução e alongamento ósseo – uma possibilidade de intervenção para tratamento que pode mudar completamente a vida de milhares de vítimas como ele, e que hoje apenas o Pará oferece na rede pública de saúde de toda a região Norte.

Antes da cirurgia, no Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), Jorge fazia parte dos cerca de mil pacientes que ainda aguardam a oportunidade de fazer esse novo tipo de procedimento pela rede pública em todo Pará. É uma fila que vem sendo reduzida, a cada dia, com a ajuda do hospital público do Estado, instalado na Rodovia Mário Covas.

Prestando atendimento de retaguarda ao Hospital Metropolitano – direcionado às áreas de clínica médica, ortopedia e cardiologia –, o Hospital Galileu foi pioneiro nesse tipo de cirurgia na saúde pública do Norte, e hoje segue como o único estabelecimento de saúde a fazer esse tipo de tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na região. O novo serviço foi implantado em abril de 2015. Até maio de 2016, um total de 278 pacientes já havia sido submetido à cirurgia.

A cada mês, o Hospital Galileu faz a média de 16 cirurgias de reconstrução e alongamento ósseo como a de Jorge Lucas. É uma frente de batalha para garantir acesso a recursos da medicina que podem dar uma vida mais digna a muitos paraenses, mas também é uma luta contra as estatísticas dos acidentes de trânsito no Brasil. Nos leitos dos hospitais como o Metropolitano, a gigantesca maioria dos procedimentos de urgência e emergência é fruto de acidentes automobilísticos – e a maior parte ligada a motos.

“Infelizmente, esses avanços do Galileu em cirurgia de reconstrução e alongamento ósseo são resultados de uma dura demanda de nossa sociedade, que tanto sofre com o volume de acidentes de trânsito. Esse serviço devolve à sociedade essas pessoas que haviam sido alijadas. Elas têm a possibilidade de se tornarem produtivas novamente, reconquistar suas capacidades laborais e suas próprias estimas”, diz o médico Saulo Mengarda, diretor geral do hospital.
 

Medicina de ponta
O tratamento de reconstrução e alongamento ósseo é recomendado para a correção das distorções de tamanhos de pernas e braços, problemas ortopédicos que podem ser motivados por diversos fatores. A técnica é hoje uma grande alternativa para pacientes que antes recebiam indicação de amputação. Com o uso de fixadores externos – instrumentos cirúrgicos ortopédicos que tratam fraturas ou deformidades congênitas –, a medicina ganhou eficiência para resolver casos com diferentes complexidades nesse campo.

O tratamento é indicado tanto para pacientes com fraturas complexas quanto para aqueles que não evoluíram com intervenções convencionais. A técnica também é um recurso para problemas decorrentes de infecções, tumores e doenças adquiridas, bem como para tratar quebras de placas e parafusos, falhas ósseas ou pseudoartroses. O tratamento também tem bons resultados em casos de deformidades ósseas congênitas, como a hemimelia fibular, ou adquiridas ao longo da vida, como na paralisia infantil.

Nesse procedimento, o osso é fixado com fios ou pinos ligados através de barras, no chamado de "fixador externo”, com um mínimo de agressão local. Após a fixação, é feito um corte no tecido ósseo. Então, aguarda-se um tempo para obter-se um novo tecido, regenerado, no local da intervenção. Ele surge após o distanciamento gradual das extremidades ósseas remanescentes, com ajuda da fixação externa.

O acidente de Jorge Lucas interrompeu o curso profissionalizante que o estudante iniciara, no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Paragominas. A meta era formar-se técnico em instalação e manutenção de redes de computadores. “Tudo que quero é ter de novo minha vida normal, voltar a sair com amigos e conquistar um emprego. 

O médico que me atendeu logo depois do meu acidente disse que eu perderia a perna. Não fosse essa oportunidade hoje aqui, tudo seria muito mais difícil”, emocionava-se Lucas minutos antes de entrar na sala de cirurgia do Hospital Galileu.
Reabilitação – "O Galileu nasceu com esse desafio, de atuarmos como retaguarda do Metropolitano nos serviços de traumatologia e ortopedia. Foi assim que surgiu a necessidade de cumprirmos essa missão, de oferecer tratamento a pessoas que teriam grandes sequelas sem isso”, resume o cardiologista Lucas Geralde, diretor técnico do HPEG.
Com a intervenção, Lucas poderá voltar não apenas a andar, mas também a continuar correndo atrás de seus sonhos. “Pensei que ia sofrer muito dentro de um hospital público. Essas coisas que a gente vê na TV. Mas aqui os médicos e enfermeiros foram muito atenciosos”, surpreendeu-se.

No hospital público, mantido em regime de convênio firmado pelo Governo do Estado com a organização social Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, por meio de contrato de gestão firmado com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), as diferenças saltam à vista. Um exemplo está nas visitas médicas aos pacientes: todas são hoje feitas com equipes completas. Fisioterapeutas, enfermeiros e terapeutas ocupacionais acompanham os atendimentos. 

“Todos os brasileiros deveriam ter acesso a esse tipo de recursos. É de uma sensibilidade muito grande o Governo do Estado estar investindo em tratamentos como esses, que representam economia para os cofres públicos. São cidadãos que não deixarão o mercado de trabalho, que continuarão pessoas produtivas”, avalia o médico ortopedista e traumatologista Marcus Aurélio Preti, especialista em reconstrução e alongamento ósseo e coordenador do serviço de ortopedia e traumatologia do Hospital Galileu.

“É uma enorme satisfação pessoal trabalhar aqui, com plenas condições para contribuirmos para a recuperação dessas pessoas, para que elas possam voltar a ter uma vida normal”, confidencia Marcus Preti. Ao lado do médico está a cama da jovem V. S. S., de 16 anos. Há dois anos, ela também sofreu um acidente de moto na Rodovia Augusto Montenegro. “Tudo que eu quero hoje é largar essa cama. Não aguento mais. Agora vou poder retomar minha vida”, planeja a estudante.

A jovem teve que largar os estudos, mas na semana passada o desejo de concluir a sexta série do ensino fundamental se acendeu de novo para a adolescente. No último dia 10 de junho ela fez a quarta cirurgia – a segunda dentro do procedimento especial mantido pelo Galileu. A primeira operação, de reconstrução do tecido ósseo, foi feita em dezembro passado. Espera-se que a consolidação de seus ossos possa ser concluída em mais oito meses. Esse é o prazo para que a estudante volte a palmilhar, mais uma vez, seu destino.

Projetos – Para um futuro próximo, a meta do Hospital Público Estadual Galileu é fortalecer ainda mais o novo tratamento. A estratégia é capacitar mais profissionais nessa área. “Planejamos parcerias com instituições de ensino para firmar nossa residência médica. Avançaremos ainda mais formando mais pessoas aptas a cuidar de casos como esses”, adianta o ortopedista e traumatologista Marcus Aurélio Preti.

Sobre esse viés, o coordenador do serviço de ortopedia e traumatologia do Hospital Galileu ressalta um diferencial decisivo para que essas conquistas fossem possíveis para saúde pública no Estado: o sucesso do modelo diferenciado de gestão da saúde pública firmado no Pará. “Vivemos num cenário em que os recursos são escassos, principalmente nesse momento de crise. 

Desse modo, é fundamental gerir recursos com eficiência, para que se consiga continuar realizando trabalhos de sucesso como esse e seguir fazendo um atendimento de qualidade”, pontua o diretor geral do HPEG, Saulo Mengarda.

Esse esforço é exposto e confirmado por algumas vitórias importantes conquistadas esse ano por esse modelo de saúde implantado no Estado. De 2.987 hospitais públicos que atendem ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, apenas dez se destacaram na mais recente lista da Organização Nacional de Acreditação (ONA), por oferecer um elevado padrão de atendimento à população – aferido por um certificado de excelência. 

Entre esses modelos de qualidade de serviços e da gestão da saúde pública, figuraram o Hospital Regional Público da Transamazônica e também o Hospital Regional do Baixo Amazonas, de Santarém, também geridos através de contratos firmados com a OS Pró-Saúde.

O ranking dos dez melhores do País listado pela ONA significa que esses são os únicos hospitais públicos de todo o Brasil que receberam a nota máxima entre estabelecimentos de saúde avaliados - a certificação ONA 3 (que significa “Acreditado com Excelência”). As demais certificações têm graus menores para esse reconhecimento, de acordo com demais desempenhos: há ainda os certificados ONA 2 (“Acreditado Pleno”) e ONA 1 (“Acreditado”). 

O Hospital Galileu também recebeu recentemente o primeiro certificado de qualidade da ONA, que o qualificou com a avaliação ONA 1 (“Acreditado”). “Nossa meta é, em três anos, atingirmos a excelência e a certificação ONA 3”, avalia o diretor geral do HPEG.
Por Lázaro Magalhães - Agência Pará

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