segunda-feira, 18 de julho de 2016

Acolhimento integral e campanha combatem o escalpelamento no interior do Estado

No último dia 30 de junho, a pequena Iwandala  Negrão, 13 anos, viajava no barco da família, no município de Breves, no Marajó. Junto com seis irmãs mais novas, a menina acompanhava os pais na colheita de açaí. O pai comemorava a compra recente do motor do barco. Bastou apenas um segundo de distração para o passeio se transformar em tragédia. Iwandala se abaixou e teve os cabelos arrancados pelo motor do barco. “Nunca tinha ouvido falar desse tipo de acidente, nunca tive um barco a motor e não conhecia esse perigo. Lamento muito o que aconteceu com minha filha, mas louvo a Deus pelo atendimento que ela recebe do Governo do Estado”, disse o pai de Iwandala, o agricultor Otoniel de Souza.

Assim como todas as vítimas de escalpelamento em acidentes com motores de barco no interior, a menor foi levada, em um helicóptero do governo, até Belém. Recebeu os primeiros curativos no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência e foi imediatamente encaminhada ao Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives) O serviço funciona na Fundação Santa Casa e é referência estadual no atendimento às vítimas desse tipo de acidente. Desde 2008, quando foi criado, o Paives já atendeu 252 pessoas; de 60% a 70% delas são crianças.

O Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento oferece assistência integral, com uma equipe multidisciplinar composta por três cirurgiões plásticos em plantão, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, fonoaudiólogos e equipe de apoio. “Antes desse espaço, a média de internação das vítimas de escalpelamento nos outros hospitais era em torno de dois anos. Agora, a recuperação dessas crianças é bem rápida”, diz a coordenadora do Paives, Socorro Ruivo.

Adaptação – Durante os doze dias de internação na Fundação Santa Casa, com a assistência do Paives, até a dieta da menina Iwandala foi prescrita para acelerar a cicatrização. Assim que recebeu alta, a garota foi transferida para o Espaço Acolher, que recebe as crianças e adolescentes vítimas de escalpelamento em uma nova etapa: a de aceitação da nova realidade e recuperação das cirurgias.

 No Acolher, que existe desde 2006, elas são acompanhadas por psicólogos e assistentes sociais e recebem aulas de informática e artes. O tratamento é para vida toda, com internações frequentes para consultas e enxertos no couro cabeludo. O espaço tem a média de 600 acolhimentos durante o ano.

Uma parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) assegura a escolarização das meninas atendidas no Espaço Acolher em todos os níveis de educação básica e na Educação de Jovens e Adultos. A proposta de ensino tem como referência o método Paulo Freire, que ensina a partir da percepção da realidade ribeirinha. 

Com o apoio das cinco pedagogas que trabalham diariamente no espaço, Ana Alice Gomes vai fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) este ano, em busca do sonho de ser assistente social. A menina sofreu escalpelamento em 2010, no município de Bagre, no Maragó, e desde então vem sendo atendida no Espaço Acolher. “O que mais gosto daqui são as aulas e o carinho das professoras”, conta.

A atenção dedicada às meninas vítimas de escalpelamento também foi percebida na festa de aniversário surpresa que Ana Alice ganhou. Entre as convidadas, estava uma ainda assustada wandala, recém-chegada da Fundação Santa Casa. Menos de um mês depois do acidente, ela ainda tenta se adaptar à nova vida, lidando com a dor e sofrimento, mas no Espaço Acolher certamente terá a dedicação de uma equipe obstinada. “Quando a gente vivencia o drama dessas meninas, se empenha cada vez mais na solidariedade e prevenção do escalpelamento”, diz a coordenadora do Espaço Acolher, Luzia Matos.

Prevenção – O acidente com Iwandala foi o terceiro registrado por escalpelamento neste ano. Os dois anteriores foram em Gurupá e Melgaço, ambos no Marajó. Em julho do ano passado, houve o registro de oito casos. Até aquele mês, nenhum acidente havia sido verificado. A meta é que neste julho de 2016, durante as férias, não haja aumento no número de escalpelamentos. 

“Intensificamos a campanha de prevenção nos municípios com maior incidência e queremos chegar ao fim do ano com uma redução significativa nos acidentes. Ano passado, tivemos onze durante os doze meses, e dessa vez queremos diminuir esse número”, afirma a coordenadora estadual de Mobilização Social da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), Socorro Silva.

A campanha é feita em conjunto com os comitês estadual e municipal de enfrentamento aos acidentes de motor com escalpelamento, que reúnem a sociedade civil, pastorais, sindicato de trabalhadores rurais e de pescadores, voluntários e instituições públicas como a Seduc e Fundação Hospital Santa Casa de Misericórdia do Pará. O trabalho de prevenção e conscientização é feito com a distribuição de panfletos trazendo dicas para evitar os acidentes, além de propaganda nas rádios locais e nos alto-falantes dos portos do interior.

A campanha de intensificação da prevenção também tem o apoio da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, responsável pela fiscalização de 101 dos 144 municípios paraenses. Durante a inspeção, é feita a devida cobertura dos eixos do motor para evitar os acidentes, além de palestras educativas. 

Neste mês de julho, 1,5 mil militares estão de olho na segurança dos motores das embarcações para diminuir ainda mais os escalpelamentos. “A média era de quase 17 casos por ano, e nos últimos três anos, esse número caiu para seis. A ideia é que a gente consiga alcançar cada vez mais as pessoas para que esse número caia para zero. Nossa missão é erradicar os acidentes com motor”, assevera o capitão Aristides de Carvalho Neto.

Dos 46 municípios do Pará com registro de escalpelamento, em 21 ocorre a ação mais intensa da campanha. Os municípios com maior incidência de acidentes ficam nas regiões do Marajó (Curralinho, Breves, Portel e Melgaço) e Tocantins (Abaetetuba e Barcarena, entre outros).

No próximo dia 28 de agosto se comemora o dia nacional de enfrentamento aos acidentes de motor com escalpelamento. De 22 a 28, será a semana estadual de enfrentamento. Em dez municípios ocorrerão várias ações, como distribuição de material, cobertura dos eixos dos barcos, rodas de conversa e capacitação de agentes municipais de saúde.
A Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes de Motor com Escalpelamento, criada em 2008, comemora avanços representativos no trabalho. Depois de um início difícil, em 2009, quando houve 23 acidentes com escalpelamento, o trabalho conseguiu estabilizar os números.

“Se formos comparar a quantidade de barcos, houve sim uma diminuição. A conscientização pública está acontecendo. Hoje, as pessoas estão mais preocupadas em proteger as famílias e assimilar as nossas orientações”, avalia a coordenadora estadual de Mobilização Social da Sespa, Socorro Silva.

Ainda durante este mês de julho, o Programa de Atenção Integral às Vítimas de Escalpelamento vai fazer quatro cirurgias inéditas no Estado, com a implantação de próteses de orelhas. “Temos mais de 50 pacientes precisando dessa cirurgia, e o lado psicológico delas é muito afetado. Estamos em uma expectativa enorme para que dê tudo certo”, reforça a coordenadora do Paives, Socorro Ruivo.

Como evitar os acidentes:
- Mantenha os cabelos totalmente presos, em forma de “coque/ pitó”, e não em forma de “rabo de cavalo”, e preferencialmente cobertos com bonés;
- Não se aproxime do eixo da embarcação, mesmo que ele esteja coberto, seja para tirar água ou para apanhar algum objeto;
- Deixe para resgatar objetos quando a embarcação estiver totalmente parada e com o motor completamente desligado;
- Cobre do barqueiro a cobertura do eixo e do poder público local, a fiscalização;
- Tenha sempre cuidado com colares, cordões ou panos de pescoço, pois muitos acidentes acontecem quando elas se prendem ao motor;
- Não arme rede perto do motor, para evitar o risco de acidentes.

Como agir em caso de acidente?
- Não coloque remédio ou qualquer outra coisa no ferimento;
- Cubra a área lesionada com um pano limpo;
- Leve a vítima ao hospital ou unidade mais próxima.
Por Syanne Neno - Agência Pará

Nenhum comentário:

Postar um comentário