terça-feira, 5 de julho de 2016

'Mataram porque era gay e nortista', diz irmão de estudante

Paraense Diego Machado foi assassinado dentro da UFRJ. Suspeita é de crime homofóbico.
 'Mataram porque era negro, gay e nortista. Está evidente isso'. O desabafo é de Maycon Machado, irmão do estudante paraense Diego Vieira Machado, assassinado com requintes de crueldade na noite do último sábado (2), no campus do Fundão, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), zona norte da cidade. O corpo foi encontrado por estudantes boiando às margens da Baía de Guanabara.

Diego era estudante de arquitetura da universidade e tinha 29 anos de idade. Ele nasceu em uma família humilde no município de Acará, nordeste paraense, e tinha o sonho de ainda ver uma sociedade justa. 'Meu irmão nunca fez uma maldade sequer com alguém, nunca brigou com ninguém, muito pelo contrário, ele sofreu preconceito por ser homossexual a vida inteira! Como ele usava cabelo grande, já tiveram até a audácia de segurá-lo para cortar o cabelo, porque diziam que aquilo não era comportado de um homem. 

O Diego sempre lutou para ser aceito e brigava por isso, queria ver uma sociedade justa ainda', desabafou Maycon a reportagem do ORM News. Ainda perturbado pelos últimos acontecimentos, ele conta que Diego deixou Belém há quatro atrás de outras oportunidades. 'Ele saiu de Belém há uns quatro anos com o sonho de cursar letras porque ele se identificava, mas dai depois mudou para arquitetura porque se encontrou com a profissão. Ele gostava de criar as coisas e era voltado mais para o meio artístico', completa.

Na noite do último sábado, o irmão de Diego estava em casa quando recebeu uma ligação da Universidade Federal do Rio de Janeiro com uma das piores notícias que já recebeu na vida: o assassinato do irmão. 'A família ficou em choque. O Diego não preocupava a gente com essas coisas de ameaça, nunca chegou a relatar nada pra mim. Ficamos sabendo disso através das redes sociais mesmo.

 Ele sempre utilizou cabelo grande e era extravagente, só queria ser ele mesmo, não tinha medo de nada. Nunca acreditou que as pessoas poderiam fazer essa brutalidade com ele', lamentou. O último contato de Maycon com irmão foi no dia 15 de junho. Com o aparelho celular quebrado, ele falava com o irmão quando tinha alguém da família com celular por perto ou quando uma tia de Diego estava na casa da família, no bairro do Curuçambá, em Ananindeua.

Maycon destaca que há duas semanas, Diego ligou para a tia e pediu dinheiro emprestado para se mudar do alojamento da UFRJ, pois já estava se sentindo ameaçado. 'O Diego pediu ajuda para minha tia, que ficou de mandar logo a quantia de R$ 300. Ficamos assustados porque ele não era de pedir dinheiro, vivia com pouco, era tranquilo', explicou.

 'Estamos acompanhando tudo com a ajuda da universidade que nos passa informações, temos recebido apoio, mas queremos justiça acima de tudo', finalizou Maycon, ainda com a voz embargada ao lembrar do irmão.

O corpo de Diogo deve ser liberado por volta das 9h da manhã desta quarta-feira (6) do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Na manhã desta terça-feira (5), o corpo do estudante ainda deve passar por exames que podem ajudar nas investigações e na comprovação da causa da morte. A Universidade Federal do Rio de Janeiro vai providenciar o traslado do corpo até Belém. 

Do Aeroporto Internacional de Belém, o corpo de Diego deve seguir até a localidade de Centro Alegre, que fica no município do Acará, nordeste paraense. O estudante deve ser enterrado em um pequeno cemitério da família nessa localidade, lado do corpo do pai.

O crime está sendo investigado pela Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro. A polícia carioca deu mais detalhes sobre o caso na manhã de hoje. 'Temos possíveis suspeitos. Entre eles, há estudantes da universidade. A principal linha de investigação é assassinato por homofobia', disse Fábio Cardoso, delegado responsável pelo caso. Ninguém foi preso até o momento.

Apoio
O movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) do Pará está acompanhando o caso por meio de informações repassadas pelo movimento Rio Sem Homofobia. Para Jairo Santos, coordenador do Movimento LBGT do Pará, não há mais dúvidas de que o crime esteja ligado a homofobia.

'Pelos requintes de crueldade e a forma em que foi encontrado o corpo não há mais dúvidas sobre isso. São todos os indícios de um crime homofóbico. O Diogo foi espancado e teve o pescoço cortado, possivelmente por uma arma branca', explica. Santos destaca que a ausência de uma lei que criminalize a homofobia faz com que homicídios como este sejam investigados como crimes comuns. 

'Não podemos fazer muita coisa. A polícia investiga, investiga e coloca o crime como sendo de preconceito e não como um crime de ódio. Não temos um dispositivo legal para cobrar isso, é muito grave. A única coisa que podemos fazer é somente gritar por socorro', desabafa.

Desde o início deste ano, o movimento LGBT já registrou 30 mortes no Pará ligadas a homofobia, a maioria contra travestis e transexuais. Mas os números aumentam em se tratando de Brasil, onde um LGBT é espancado a cada 36 horas. Desde o início de 2016, 132 homossexuais já foram assassinados no país, segundo dados do Disque 100. 'Vamos acompanhar o caso de perto, não vamos deixar passar. Temos que cobrar das autoridades. Quando isso acontece, sofre o LGBT, a família dele, os amigos. Sofre todo mundo', finaliza Santos. 
Bruno Magno (ORM News)

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