sábado, 6 de agosto de 2016

Pará realiza implante de orelhas em vítimas de escalpelamento

Uma conquista importante não só para a medicina, mas principalmente para a qualidade de vida de vítimas de escalpelamento. Ontem sexta-feira (5), data em que foi comemorado o Dia Nacional da Saúde, foram realizadas na Santa Casa de Misericórdia do Pará, em Belém, as duas primeiras cirurgias realizadas no Brasil de implante de próteses auriculares (de orelhas) em duas mulheres escalpeladas. “É um sentimento de realização. Significa uma conquista, que influenciará no regaste da autoestima”, declarou a paciente Deusiane Pantoja de Almeida, uma das beneficiadas. A meta do Governo do Pará é beneficiar 57 mulheres e um homem que tiveram as orelhas amputadas, juntamente com o couro cabeludo, em decorrência de acidentes com eixo de motor de embarcações. Serão implantadas 66 próteses.

As técnicas utilizadas no procedimento cirúrgico foram apresentadas pelo cirurgião dentista Marcelo Carneiro, especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial, na manhã desta sexta-feira, em coletiva de imprensa na Santa Casa. “É uma prótese específica para cada paciente, feita de acordo com o biotipo de cada paciente. O procedimento cirúrgico consiste em duas etapas – a cirúrgica (instalação dos implantes de titânio na região do osso mastoide) – e a etapa protética (colocação individualizada da prótese auricular).

A escultura é feita em cera, e o material final é de silicone. Lembrando que é um procedimento inédito no Brasil para esse tipo de ocorrência, por isso tivemos de fazer uma adaptação no método utilizado”, explicou o cirurgião.

Parcerias - A iniciativa faz parte do Projeto de Implante de Prótese Auricular, que tem a parceria da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará. Para a efetivação do projeto, foi necessário estreitar parcerias nas esferas municipal, estadual e federal em relação ao credenciamento do serviço, contratação de recursos humanos e aquisição de materiais/instrumentais para os procedimentos técnicos. 

“Cada um dos envolvidos tem uma participação importante no processo. Estamos dando um passo importante. Vamos buscar mais recursos e parcerias para garantir todo o apoio necessário”, afirmou a secretária adjunta da Sespa, Heloísa Guimarães.

A Santa Casa atua na assistência humanizada e desenvolve, entre outras ações, o Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives), que atendeu nos últimos 20 anos uma média de 250 pacientes, com um percentual de óbito de 5% dos casos. O tratamento exige, às vezes, mais de seis cirurgias de reparação e reconstrução do couro cabeludo.

Para acolher melhor as vítimas e, também seus acompanhantes, foi criado o espaço "Acolher”, que abriga pacientes e membros da família durante o tratamento. “Esse é um momento gratificante. Estamos avançando na busca do melhor atendimento. Um resultado a mais para somar com as ações já realizadas”, frisou a presidente da Fundação Santa Casa, Rosângela Monteiro.

Prevenção - O Governo do Pará, por meio da Coordenação Estadual de Mobilização Social, vinculada ao Departamento de Políticas de Atenção Integral à Saúde, tem intensificado as ações de prevenção em todo o Estado, principalmente nas localidades ribeirinhas. Segundo levantamento referente ao período de 1997 a 2012, 85% dos acidentados são do sexo feminino - e destes, 65% são crianças.

Em 2015 foram registrados 11 casos de escalpelamento em todo o Estado. Neste ano, até o momento há três registros. Normalmente, há maior ocorrência no mês de julho, mas não houve nenhum caso registrado no mês.

“É importante destacar as parcerias e a integração das ações. Tudo é possível quando nos juntamos e agimos na mesma sintonia por uma causa, especialmente no que tange a procedimentos que melhoram a qualidade de vida das pessoas”, destacou Izabela Jatene, titular da Secretaria Extraordinária de Integração de Políticas Sociais.

Vida nova - Um acidente no barco da família mudou completamente a vida de Iranilda Silva Magno, 43 anos. Aos 10 anos, ela foi vítima de escalpelamento na cidade de Muaná, no Arquipélago do Marajó. No acidente, além do cabelo, ela perdeu parte de uma orelha.
Daquele momento até hoje, Iranilda já passou por inúmeras cirurgias. Mas uma é especial, e foi muito aguardada: a implantação de próteses auriculares. “Eu esperei tanto! Preciso usar óculos e sem a orelha fica muito difícil apoiar, dói muito. Meu sentimento agora é só alegria”, declarou Iranilda, uma das primeiras vítimas beneficiadas com esse procedimento inédito no País.

Muito mais do que recuperar uma parte do corpo e as funções perdidas pela mutilação, o implante proporciona um recomeço na vida das pacientes. Deusiane Pantoja de Almeida foi a primeira a entrar na sala de cirurgia e passar pelo procedimento. Natural de Abaetetuba, município do nordeste paraense, ela sofreu o escalpelamento quando tinha 15 anos.
“O procedimento ocorreu como esperado. Nós fizemos a instalação de três implantes, no tempo previsto de uma hora e meia, e agora é aguardar os próximos meses para a confecção da prótese”, disse o cirurgião Marcelo Carneiro, responsável pela cirurgia.

Iranilda e Deusiane receberão alta neste sábado (06), e já no próximo dia 16 de agosto retornarão ao hospital para avaliação. Após três meses, elas receberão as próteses, abrindo as portas para uma vida nova.

Também participaram da coletiva a diretora de Políticas de Atenção Integral à Saúde, Socorro Bandeira; a diretora de Vigilância em Saúde da Sespa, Roseana Nobre; a coordenadora estadual de Hepatites Virais, Cisalpina Cantão; o dentista especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial, Luís Jorge Guedes, integrante da equipe cirúrgica, além de representantes da Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), da Marinha do Brasil, do Corpo de Bombeiros Militar do Pará e da Comissão Estadual de Erradicação dos Acidentes de Motor com Escalpelamento (CEEAE), cuja ação prioritária é definir uma política estadual para erradicação dos acidentes de motor com escalpelamento. A comissão é composta por instituições públicas e entidades da sociedade civil. (Colaborou Edna Lima, da Ascom Sespa)
Por Bianca Teixeira - Agência Pará

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