sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Pro Paz Enem: estudantes paraenses vão às provas com reforço garantido

O sol ainda nem surgiu quando os primeiros movimentos na casa da família Rodrigues dão sinais que mais um dia começa. É assim todas as manhãs. Enquanto a estudante Priscila Costa Rodrigues, 17, se prepara para ir à Escola Estadual Barão de Igarapé-Miri, o pai, Edson Romano Rodrigues, já começa mais uma batalha para garantir o sustento da família, garantido com a venda de farinha e de açaí. O lar é humilde: um barraco de um só cômodo, de 6x5 metros, suspenso e acessado por uma escada frágil, localizado na passagem Serrão de Castro, no bairro do Guamá, o mais populoso da Região Metropolitana de Belém. Priscila Rodrigues é uma entre os milhares de estudantes de escolas públicas do Pará que irão participar este ano do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

As provas acontecem em todo o País neste sábado (5) e domingo (6), mas desde maio várias iniciativas do Governo do Estado vêm ajudando a dar reforço ao empenho desses alunos. Além de aulões programados em Belém e em vários municípios do interior e reforços em cargas horárias promovidos pela educação pública estadual, o acesso a conteúdos especiais também estão sendo facilitados mais uma vez por meio de programas veiculados pela TV Cultura do Pará e de apostilas e outros materiais para download disponíveis pelo site da Fundação Pro Paz.

Segundo um balanço do Ministério da Educação, este ano o Enem registrou 9,3 milhões de inscritos em todo o País. Mais de três milhões de inscrições foram feitas somente na região Norte. A Secretaria de Estado de Educação (Seduc) estima que, no universo de alunos do ensino público paraense, cerca de 400 mil estudantes devem se submeter ao Exame Nacional – incluindo turmas ligadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e ao Projeto Mundiar (programa voltado para a redução da defasagem entre idades e séries escolares).
As notas no Enem passaram a ser usadas como critério para seleção em diversas instituições de ensino superior públicas e privadas, substituindo o antigo vestibular. 

A inscrição no exame também permite aos estudantes concorrer ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para disputar vagas abertas em todo o Brasil em faculdades, institutos e universidades públicas. Por meio do Enem também é possível se candidatar às bolsas oferecidas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) e a financiamentos pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Apoio - “Estamos bem otimistas com relação ao desempenho dos alunos paraenses este ano. Iniciamos várias ações desde o início do ano, desde reforços nas escolas aos aulões do Pro Paz Enem, levados ao interior, e também através da TV Cultura do Pará”, avalia Joseane Figueiredo, que responde pela Diretoria de Ensino Médio e Profissionalizante da Seduc.

A experiência do terceiro ano expandido, com carga horária maior, é uma opção oferecida às escolas públicas paraenses. Muitas aderiram ao esforço. O incremento vem sendo realizado com a abertura do sétimo horário ao longo da semana e também com aulas programadas aos sábados. “Ainda assim, aconselhamos que, nesta reta final, os participantes desacelerem o ritmo de estudos para fazer as provas com tranquilidade”, diz a diretora da Seduc.

Pro Paz Enem - Na última quinta-feira (3) foi realizado em Belém, na escola Brigadeiro Fontenelle, da Terra Firme, o último aulão do programa Pro Paz Enem previsto para este ano na capital. Na escola, o reforço foi garantido ao longo de um mês inteiro, sempre às terças e quintas. Iniciado em 2015, o Pro Paz Enem já atendeu a mais de 12 mil estudantes com "aulões" realizados em Belém e também em municípios do interior, com objetivo de reforçar o conteúdo voltado ao Exame.

Este ano, além da capital, o projeto contemplou, desde agosto, estudantes de Castanhal, Capanema, Breves, Portel, Santarém e Abaetetuba. A iniciativa é desenvolvida pela Fundação Pro Paz e Secretaria de Estado de Educação (Seduc), com o apoio da Secretaria Extraordinária de Políticas Públicas de Integração (Seeips) e Fundação Paraense de Radiodifusão (Funtelpa).

Desde maio a TV Cultura do Pará (canal 2) também colocou no ar, pela pela primeira vez, o programa semanal “A hora do Enem”, produzido pela TV Escola, canal do Ministério da Educação. O programa foi exibido de segunda a sexta-feira, das 18h às 18h30, com reprises aos sábados, de 10h às 12h30. Com isso, o alcance dos conteúdos do Enem tem conseguido chegar aos 115 municípios paraenses hoje cobertos pelo sinal da TV pública.

Com dicas, entrevistas, resoluções de questões comentadas de exames anteriores, os conteúdos podem ser acessados também pela internet, no site da TV Escola (http://tvescola.mec.gov.br/tve/serie/hora-do-enem). Na internet, além dos programas, o estudante pode encontrar notícias atualizadas e uma plataforma de estudos personalizada, que permite acesso a planos de estudos, exercícios e até simulados online.

Além disso, pelo quarto ano consecutivo a TV Cultura também voltou a exibir o programa Pro Paz Enem, produzido totalmente pela Funtelpa, Fundação Pro Paz e Seduc. O programa foi ao ar todas as quartas, quintas e sextas (19h), com reprise aos sábados (de 7h as 10h). As videoaulas – que inclusive serviram de modelo para o programa da TV Escola, do MEC -, cobriram os principais conteúdos do Exame Nacional de Ensino Médio e também se alia a chats programados e conteúdos disponíveis para acesso no site do Pro Paz (www.propaz.pa.gov.br). Lá é possível baixar PDFs de apostilas especiais preparadas para os estudantes.

“É um compromisso. Já se sabe que todos os anos teremos esse espaço na nossa grade de programação, voltado ao estudante que participará do Enem”, pontua Adelaide Oliveira, presidente da Funtelpa. “É uma grande parceria. Entramos com nosso know-how de produção, direção e transmissão e a Fundação Pro Paz com os conteúdos. O retorno é grande nas redes sociais. E já soubemos de cursinhos que na véspera das provas transmitiram nossas videoaulas”, comemora.

“É algo que faz parte de nossa missão, enquanto emissora pública. E o mais interessante é a dimensão desse tipo de iniciativa. Não estamos só falando dos estudantes que farão o Enem. Há milhares de outras pessoas de várias idades que também têm acesso a esses programas e que também têm a oportunidade de ver as aulas do Enem. 

Isso é muito interessante e tem um retorno surpreendente. Algo que, inclusive, continua depois, com interatividade nas redes sociais e no site da Fundação Pro Paz. É importante dar oportunidade de acesso em canal aberto a esse tipo de conteúdo”, ressalta Adelaide Oliveira.

“O formato de videoaulas não tem grande segredo, mas certamente é um desafio de linguagem ao qual conseguimos responder muito bem com nossa experiência, que inclusive foi um dos modelos para as aulas da ‘Hora do Enem’ da TV Escola, do MEC. Só através da TV aberta algumas pessoas podem ter acesso a esses conteúdos. E isso é fundamental: chegar a 115 municípios paraenses é um feito”, avalia Tim Penner, diretor da TV Cultura.

Incentivo e sonhos - Desde 2015, cerca de 750 estudantes de escolas públicas ligados ao projeto Pro Paz Enem já foram aprovados na Universidade Federal do Pará (UFPA), e outros 251 ingressaram na Universidade do Estado do Pará (Uepa). É a esse grupo de alunos com histórias vitoriosas de superação que a estudante do Ensino Médio Priscila Rodrigues sonha se juntar. 

E quando a caçula e todo o resto da família Rodrigues Cardoso sonham, é para valer: dos quatro filhos do casal Edson e Lucideia Leal Costa Cardoso, apenas a mais velha parou os estudos, após se casar. O irmão Mateus Costa Cardoso, 18, foi aprovado ano passado em Enfermagem pelo Enem. Não quis cursar: preferiu continuar estudando para fazer o exame novamente. Sua meta é fazer Engenharia Naval e entrar para as forças armadas.

“Eu não tenho nada, mas tudo o que eu pego eu invisto neles. Há dois anos estou desempregado, mas me viro com a venda de farinha e de açaí para pagar cursinho. Quero que eles estudem para que possam ter a chance que eu não tive”, conta o pai, Edson Rodrigues. “Eu mal consegui terminar a quinta série”, emociona-se, sentado ao lado da esposa, que acompanha a conversa diante do fogão. “Ela [a esposa] conseguiu terminar o segundo grau. Mas quando a gente tem que correr para ganhar pro sustento, fica mais difícil. Quero que meus filhos consigam”.

Os professores e colegas de sala são testemunhas do desempenho de Priscila Rodrigues, que desde criança sonhava em ser médica. “Pediatra”, assevera ela, com uma convicção refletida nos olhos e no sorriso, como se nada mais pudesse se colocar no caminho desta certeza.

E esse caminho, que começa todos os dias muito cedo, é feito primeiramente a pé, de casa até a escola estadual Barão de Igarapé-Miri. Na sala onde estuda estão outros 40 alunos. As aulas terminam uma da tarde. Por conta disso, no último ano Priscila quase não soube o que era almoçar com tranquilidade. Depois de sair da escola ela passa rapidamente em casa e já segue para o cursinho particular que o pai paga para ela e para o irmão, localizado na Travessa Castelo Branco, próximo à avenida José Malcher.

 O reforço começa às 13h30 e segue até às 18h45. “Chego em casa geralmente por volta das 19h30. Descanso um pouco, janto por uma meia hora e recomeço a maratona de estudos às 20h. Só paro uma 22 horas, que é quando vou fazer também os deveres e trabalhos da escola”.

Com essa agenda puxada, Priscila só tem a chance de assistir às teleaulas que vão ao ar pela TV Cultura na reprise dos sábados. E não perde nenhum programa. Também frequenta os aulões de sábados e domingos oferecidos pelo Pro Paz Enem. Ao longo da semana, a ajuda de reforço vem também de um aplicativo de celular, o “Pense mais Enem”, além de simulados colhidos em pesquisa na internet do computador de casa também em sites como o da Fundação Pro Paz.

“Com 180 questões mais redação é um pouco difícil”, explica Priscila quando questionada sobre a preparação psicológica para os exames e diante da aconselhada redução de ritmo nos estudos na reta final. “Quero rever o conteúdo de Matemática essa semana. É preciso”, planeja. E quanto ao que planeja para depois das provas, ela é assertiva: "No início do ano eu quero estar no Rio de Janeiro. Desde criança eu digo que vou fazer Medicina na UFRJ. É a melhor faculdade de Medicina do País”, sonha.

 E esse primeiro objetivo não poderia mesmo ser outro, visto que o resto do plano é ainda mais ambicioso. “Fazer Medicina, me formar como pediatra e depois entrar para a Marinha como médica.  Esse é o meu foco”, sorri.
A tenacidade mostrada pela estudante do bairro do Guamá se assemelha à de outra jovem que também esteve entre os mais de 300 estudantes que participaram, em setembro, dos aulões realizados pelo Pro Paz Enem em Breves, no arquipélago do Marajó. 

Silvia Letícia Costa Oliveira, 18, mãe de Tarso Gabriel Costa Bispo, de quatro meses, acompanhou as programações mesmo às voltas com os cuidados que o pequeno exige. Durante as aulas, ministradas no auditório do Centro de Desenvolvimento de Educação Profissional (Cedep), localizado na avenida Rio Branco, Gabriel dormia calmamente ao seu lado.

“Isso me ajudará muito”, garante Silvia, que este ano terá sua terceira experiência no Enem. Nas últimas duas edições, apesar das boas notas boas, ela ainda não tinha idade nem grau completo para buscar uma vaga na universidade. “Esse ano termino meu Ensino Médio. Quero fazer Pedagogia ou Ciências Naturais, inicialmente, aqui em Breves. E assim que meu filho crescer, pretendo sair e cursar Direito em outro lugar”, planeja.

“A ideia é justamente essa: oferecer com esses grandes aulões uma motivação a mais para os estudantes que concorrerão ao Enem. Os professores atuam de forma bem dinâmica e didática, dando dicas importantíssimas e abordando conteúdos de todas as disciplinas das provas”, lembra Raimundo Rodrigues, coordenador do Pro Paz Enem. Ele ressalta que o maior objetivo do projeto não é substituir as atividades e os conteúdos que já são dados pelos professores da rede pública de ensino.

 A meta é dar um estímulo a mais aos alunos e aos professores, para que se preparem e alcancem os seus objetivos nas provas.“Com iniciativas como essas, a Fundação Pro Paz cumpre sua missão, que também é implementar políticas públicas para a criança e o adolescente. Então o Pro Paz Enem é uma ação de estímulo a mais para a formação desses alunos, como auxílio à preparação para as provas que dão acesso à universidade”, avalia o coordenador do programa.

Exames - As provas de sábado (5) e domingo (6) serão aplicadas a partir das 13h30 (horário oficial de Brasília - DF) ou às 12h30 em Belém e outros municípios paraenses, que estão fora do Horário de Verão. Os portões de acesso serão abertos às 12h e fechados às 13h (horário oficial de Brasília), ou a partir das 11h, em Belém, com fechamento previsto para o meio-dia. 

A organização do concurso recomenda que os estudantes cheguem aos locais de prova preferencialmente às 12h (horário de Brasília), ou às 11h, no horário de Belém e outros municípios paraenses.

Os participantes do Enem devem levar para as provas o seu comprovante de inscrição e 
documento de identificação original com foto e validado pelo edital do exame, além de caneta esferográfica preta transparente – cartões-resposta preenchidos com caneta de outra cor podem não ser lidos pelo sistema automático de correção das provas.

Pro Paz Enem 2016
Apostilas e orientação online – Além das inscrições para os aulões, feitas todos os anos, no site do Pro Paz Enem (www.propaz.pa.gov.br) é possível baixar PDFs de apostilas de disciplinas e buscar mais conteúdos e comentários complementares aos aulões e videoaulas que foram transmitidos pela TV Cultura (canal 2), sempre às quartas, quintas e sextas (19h), com reprise aos sábados (de 7h as 10h).
Por Lázaro Magalhães - Agência Pará

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