segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Rede estadual oferece educação inclusiva e oportunidades a pessoas com deficiência

Ana Clara Maciel, 20, é uma garota sorridente e talentosa. Na sala de aula do curso de bacharelado em música, todos conhecem o som do seu violino e a história marcada por medalhas e sonhos se tornando cada vez mais reais. Ana é portadora de uma doença congênita que lhe causou cegueira total desde o nascimento. Quando tinha pouco mais de um ano, a mãe buscou auxílio na rede de atendimento estadual e encontrou o Instituto José Alvares de Azevedo, onde a filha iniciou a trajetória para desenvolver as habilidades.

A educação de uma criança deficiente visual começa bem cedo, como a de qualquer outra criança, mas é necessária uma orientação diferenciada para que ela possa compreender melhor o mundo com os sentidos. Existem aulas de estímulos com materiais das mais diversas texturas, assim como orientações espaciais sobre distância e altura, conceitos que serão importantes para a futura independência deste indivíduo.

Ana Clara passou por todos estes processos até a aprender a ler em braile, aos 6 anos. A partir daí, assim como várias crianças da instituição, ela estudava no ensino regular e, no turno da tarde, recebia a complementação com o ensino especializado. A estudante também aplicava parte do tempo à escola de música, onde aprendeu os fundamentos básicos para a futura carreira.

“O ensino complementar foi fundamental para minha formação. Eu me esforçava bastante, mas tinha algumas matérias que eu não conseguia compreender só ouvindo, como matemática, física e química. Eram ideias muito abstratas. Eu levava o conteúdo para a sala de aula do Álvares de Azevedo e os professores sabiam exatamente como nos demonstrar melhor aquilo”, conta Ana Clara, que, graças a esse apoio, passou no vestibular em 2015, e hoje realiza o sonho de se tonar musicista. Ela diz com orgulho que fez o vestibular sem optar pelas cotas e conseguiu passar tanto na prova teórica quanto na prática, disputando com candidatos sem deficiência.

“Esse tipo de ensino complementar é muito importante para nós, pois nos dá independência. É claro que em algum momento sempre precisaremos de ajuda, e agradeço a minha mãe por estar sempre ao meu lado para isso. No entanto, podemos conquistar nossos objetivos como qualquer outra pessoa. Isso vai desde conseguir pegar um ônibus a passar em um vestibular. Não há limites para o que podemos fazer”, afirma.

Além de tocar violino, Ana divide o tempo com os treinos de judô na Associação Souza Filho de Artes Marciais (Asfam), instituição que também recebe apoio do Governo do Estado. Com menos de um ano de treino, ela já participou do Grand Prix Infraero de Judô para Cegos e conquistou a primeira medalha de bronze em Belém.

“Foi incrível competir e estar perto de tantos ídolos. Descobri o judô há pouco tempo e me apaixonei. A Asfam é outro lugar muito bom para as pessoas com deficiência interagirem, trocarem experiências e crescer juntas. Acredito que a nossa superação em diversas áreas da vida é uma forma da sociedade nos ver e nos aceitar cada vez mais”, frisa.

Referência - Ao todo o Pará tem 635 escolas que têm salas com recursos multifuncionais para atender alunos com os mais variados tipos de deficiência física, motora ou intelectual. As salas são cedidas pelo Ministério da Educação (MEC); em contrapartida, o governo estadual dá os espaços nas escolas e destaca professores capacitados para atuar no trabalho. Atualmente existem 1.666 professores habilitados para ensinar crianças, jovens e adultos com necessidades especiais.

O Pará é uma das referências nacionais na formação e capacitação de professores nesta área. A Secretaria de Estado de Educação (Seduc) oferece diversos cursos anualmente, além de dar apoio para que os profissionais se atualizem em formações fora do Estado. 

O curso mais recente ocorrerá no período de 28 de novembro a 2 de dezembro, quando 114 professores participarão de uma capacitação no Instituto Álvares de Azevedo que vai habilitá-los a ministrar aulas para o público portador de necessidades especiais.

“Na sala de aula existem muitos casos diferentes, mas todos são avaliados conforme as necessidades. No caso da cegueira, existem pessoas que têm baixa visão ou adquirem a cegueira ao longo da vida por algum problema. Existe também a questão das múltiplas deficiências, como o cego e surdo, cadeirante e cego, entre outros. 

O importante é que o professor esteja habilitado para lidar com estas situações para ajudar os alunos no processo de inclusão e eles possam compreender melhor o mundo ao redor”, diz a coordenadora de Educação Especial da Seduc, Kamila Vallinoto.

Um exemplo desta dedicação é o professor do Instituto Álvares de Azevedo Ronaldo Alex Raiol, 40. Deficiente visual, ele também já foi aluno da instituição. Perdeu a visão no fim da infância e precisou passar por todas as etapas de adaptação, incluindo reaprender a ler e escrever em braile. A experiência fez com que ele se dedicasse cada vez mais até conseguir se formar professor, e assim, ajudar outros como ele. Hoje ele fala da importância do ensino especializado como forma de integrar cada vez mais as pessoas com algum tipo de deficiência à sociedade.

“Damos aulas para todas as idades, desde o bebê até o idoso, e são muitos casos diferentes. É um trabalho imenso de muito amor e dedicação. Tenho a minha experiência pessoal como cego para compartilhar com os alunos aliada a muitos anos de estudo. Temos professores aqui que enxergam e também dão excelentes aulas. Somos uma comunidade e uma família no instituto.

 O importante é que essas pessoas tenham a oportunidade de descobrir que existe uma opção de desenvolvimento e crescimento. A deficiência, seja ela a cegueira ou outra coisa, não é o fim da vida, mas uma oportunidade para recomeçar”, relata o professor.

A Coordenadoria de Educação Especial da Seduc fica na Avenida Almirante Barroso, 1.765, em Belém. Telefone: (91) 3222-8637Gratis.

Por Diego Andrade - Agência Pará

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