segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Crise no País afeta trabalho de artesãos no Pará

 A praça da República, no centro de Belém, é um dos pontos mais visitados por turistas e moradores da cidade, aos domingos. Além de um ambiente agradável, isso se deve, também em parte, à oferta de produtos diversos dos trabalhadores da Associação dos Artesãos e Expositores da Amazônia (Artepam), que em 2017 completará 30 anos de atuação, reunindo cerca de 350 profissionais. Os artífices fazem questão de ter uma produção diferenciada, que vai de objetos de decoração, esculturas, roupas, brinquedos, a comidas típicas, lanches e doces, mas eles compartilham as mesmas preocupações com a falta de segurança pública no local e a má-conservação das calçadas e passeios que provocam tropeços e quedas entre os visitantes.

''Está difícil'', disse a artesã Roberta Keila, que há 24 anos ajuda a sogra em uma das barracas da feirinha. Ela contou que todos os domingos chega às 7h e fica até o movimento estar bom, lá pelas 15 horas, segundo ela. Roberta vende cheiros do Pará, a exemplo de objetos pequenos, como árvores de Natal e até as renas que acompanham o trenó do Papai Noel, confecionados artesanalmente a partir da batata da priprioca (Cyperus articulatus L.) conhecida pelo perfume marcante com notas amadeiradas e picantes e também a partir do patchouli (planta de aroma forte muito usada na perfumaria regional).

Ela afirmou que para produzir seu material, compra a matéria-prima de comunidades da região das ilhas, na frente de Belém, a exemplo da comunidade de Boa Vista. Sobre as vendas e condições de trabalho na praça da República, Roberta disse que o espaço precisa de muitas melhorias. "Começando por mais segurança, eu vejo assalto aqui direto, tem os pedintes de rua que abordam o pessoal, alguns visitantes ficam até com medo. 

E isso tudo afasta quem poderia ser nossos clientes. Essas barracas estão velhinhas, as lonas, feias. Tinham de ser trocadas. Domingo passado não foi nada bom, a chuva chegou cedo e atrapalhou. Vamos ver se as vendas melhoram agora em dezembro, tomara'', torceu Roberta, na manhã de ontem, 11.

Em geral, os artesãos da Artepam vivem de seu artesanato, mas todos os ouvidos pela reportagem na manhã de ontem, afirmaram que buscam fontes paralelas de renda porque a Praça da República já não é mais o seu maior ponto de vendas. ''Antigamente, você vendia bem. Hoje, se você consegue R$ 300 num dia, é o máximo. Eu tive dias de sair daqui com mil reais no bolso, agora está complicado'', disse Diva Salvador Stein, há seis anos associada da Artepam.

''O meu artesanato é diferente, eu trabalho com dois tecidos caros, o algodão cru e o algodão percal (um tecido 100% algodão com tramas mais abertas), no meu material não têm poliéster (resina sintética)'', explicou Diva sobre sua mostra de porta-guardanapos, guardanapos, luvas para cozinha, coberturas para travessas de bolos, garrafão de água, bujão de gás. Enquanto Diva conversava com a equipe de reportagem, duas senhoras se aproximaram de sua barraca, perguntaram sobre vários preços, agradeceram e se despediram sem levar nada.

''A gente ainda não está em clima de Natal. Hoje cheguei entre 6h30 e 6h45. Devo ficar até duas da tarde. O meu produto é mais para dona de casa, então até meio-dia, uma hora da tarde, tenho chances de vender depois disso, não mais. Vivo do meu artesato, mas estou pegando encomendas. 

Durante a semana vou fazendo e vou entregando uma aqui, outra ali. Sou divorciada, e tenho uma filha já casada que não depende de mim para nada. Mas, posso dizer que a minha renda está pior do que no ano passado. E isso é geral para todos os colegas'', destacou Diva Stein.

Noemir Ferro Siqueira, há 18 anos na Artepan, vende sucos regionais de acerola, cupuaçu, graviola, taperebá, bacuri, esse último é o de maior venda, contou ela. Cada copo de 300 ml custa R$ 5. ''Alimento é uma coisa que a pessoa sempre precisa, vou driblando a crise, não estou sentindo tanto'', afirmou Noemir, que é separada do marido, e trabalha com a ajuda dos seus dois filhos: Emily, 16; Caíto, 15; estudantes do 2º ano do ensino do médio e da 8ª série, do fundamental, respectivamente.

''Eu me mantenho só daqui, mas aprendi a fazer outras coisas como artesanato de biscuit, bolos. A gente fica até uma duas e meia da tarde, não dá para ficar mais porque a praça está perigosa, a gente não te segurança, e olha a calçada, só buraco. As pessoas reclamam muito. 

Ao lado da mãe, Emily comentou que ajuda a mãe, mas não quer seguir a carreira de artesã. "Quero fazer jornalismo ou marketing, são duas faculdades que eu acho bacana. A vida de artesão tem meses bem complicados, agora em dezembro a gente espera um mês bom. O comércio está abrindo aos domingos e isso acaba atraindo mais gente aqui para o centro'', afirmou a adolescente.

As irmãs Raiana e Petra Marrom disseram que lançaram mão de estratégias para aquecer as vendas este ano. Elas estão na praça há oito ano representando o pai, que é apicultor há mais de 20 anos em São João de Pirabas, (região do Salgado). "É ele mesmo quem produz tudo que a gente exibe aqui. 

Todos os nossos produtos são origem apícola, como o mel da abelha africana e da abelha uruçu (abelha nativa), o própolis, o pólen, a geleia real, também vendemos o gersal, pão e biscoito caseiros, que a gente mesmo faz'', afirmou Raiana. (O Liberal)

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