segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mulheres tratam disfunção sexual decorrente do câncer

O câncer de colo de útero (CCU) é um dos mais diagnosticados na Região Norte. Somente no Pará são estimados 820 novos casos até o final do ano. As formas de tratamento mais comuns incluem a cirurgia e o uso de feixes de radiações ionizantes sobre o tecido que engloba o tumor. O tratamento é necessário para combater o câncer, mas a radioterapia pélvica pode ocasionar disfunções sexuais, que resultam em dor física, baixa autoestima, tristeza e até abandono pelos companheiros. 

Essa realidade passou a ser objeto de estudo em um projeto de pesquisa realizado por acadêmicas da Universidade do Estado do Pará (Uepa), que oferece avaliação e tratamento fisioterapêutico ginecológico gratuito às pacientes, no ambulatório do Hospital Ophir Loyola, em Belém.

A fisioterapeuta Érica Carneiro, orientadora do projeto, explica que a pesquisa é realizada, em caráter experimental, em mulheres diagnosticadas com câncer de colo de útero, com faixa etária entre 35 e 65 anos, que realizam teleterapia ou braquiterapia (tipo de radioterapia interna, na qual um material radioativo é inserido dentro ou próxima ao órgão a ser tratado), entre 2013 e 2017, com ou sem cirurgia.

“A disfunção sexual é bem comum. Caracteriza-se pela estenose vaginal que é o fechamento da vagina, e ocorre em várias etapas do ciclo sexual. A mulher deixa de sentir, por exemplo, excitação, sensação de orgasmo, e deixa o sexo de lado por medo da dor. Esse problema pode ocorrer em várias mulheres em função do tratamento, assim como a incontinência urinária e irritação na bexiga”, informa a orientadora.

Dor física e emocional - A professora Ana Moura, 41 anos, foi diagnosticada com CCU em junho do ano passado. O resultado, revelado na véspera do aniversário, é difícil de esquecer. Devido ao avanço da doença, ovários, útero e trompas foram retirados. “Tinha a sensação de estar oca por dentro”, conta a paciente, que foi submetida a 23 sessões de radioterapia e quatro sessões de braquiterapia.

O tratamento causou algumas complicações, como a estenose vaginal, ressecamento, perda de elasticidade e profundidade diminuída na região. A especialista que a acompanha frisou a importância da vida sexual ativa, mas para ela esse contato físico se tornou quase impossível. Casada há 17 anos, Ana não conseguia manter relações sexuais e chegou a imaginar que o casamento havia acabado.

A dor durante o ato era intensa e provocou a perda da libido. “Estava me sentindo um nada. Pensei que nunca mais o deixaria tocar em mim, e jamais teria vontade de tê-lo novamente. Havia uma dor não só física, mas emocional. A gente se sente menos mulher. Apesar de tudo, descobri ser muito amada pelo meu marido, que me apoiou e se mostrou muito paciente e amoroso”, afirma a professora.

Mas essa realidade começou a mudar quando ela passou a ser voluntária, em março deste ano, do estudo de fisioterapia ginecológica no hospital. Durante a primeira avaliação não conseguiu passar pelo exame de toque. Mas com as orientações, uso de dilatadores vaginais e exercícios para melhorar a musculatura da pelve (região do quadril), lubrificação e elasticidade vaginal, para auxiliar a função sexual, entre outros benefícios urinários ela ganhou mais qualidade de vida.

“Elas me orientaram a fazer o exercício em casa. Faltando apenas quatros dias para o retorno, consegui manter relações com meu marido. A dor foi mínima. Hoje já consigo estar com ele tranquilamente”, relata Ana Moura.
Vida ativa - Segundo a literatura médica, o comprimento vaginal igual ou menor a 8 centímetros é considerado estenose. No Hospital Ophir Loyola já foram avaliadas mulheres com menos de 5 cm. Em outros casos não foi possível mensurar a dilatação devido ao fechamento do canal.

A acadêmica Marina Pereira explica que a função sexual é um dos itens pelo qual se mede a qualidade de vida. Segundo ela, o objetivo é tratar as mulheres e conscientizá-las sobre a importância da vida sexual ativa. “Muitas delas não aderem à prevenção e apresentam a disfunção, mas ignoram pelo medo da doença voltar e de sofrer outra alteração no corpo”, destaca Marina Pereira.

Segundo ela, “o primeiro contato com as mulheres é realizado na sala de espera pelas consultas de ginecologia. Então explicamos nosso trabalho, fazemos a avaliação física, utilizamos questionários, e caso decidam aderir ao tratamento, passamos exercícios domiciliares para elas fazerem durante um mês e meio. Durante o retorno são reavaliadas e, se ainda apresentarem alguma alteração, o tratamento é iniciado no consultório”.

Desde setembro do ano passado 65 mulheres foram avaliadas. Desse total, 75% apresentaram disfunção sexual e incontinência urinária. Atualmente, 12 são acompanhadas, e os resultados são satisfatórios. Os anseios e dúvidas das pacientes são escutados desde o primeiro momento, quando elas começam a receber informações sobre os benefícios da fisioterapia ginecológica.

“Explicamos sobre a anatomia da região pélvica e as funções dos músculos íntimos. Temos uma boa aceitação, mas algumas pacientes não aderem ao tratamento porque residem no interior do Estado, e outras pelo próprio tabu sobre o assunto. Passamos todas as informações quantos aos cuidados necessários, como o uso de preservativo, lubrificante e a possibilidade de evitar posições mais dolorosas”, acrescenta a acadêmica Marina Pereira.
Por Leila Cruz - Agência Pará

Nenhum comentário:

Postar um comentário