terça-feira, 13 de março de 2018

Estado lança programa de incentivo à produção no Congresso Brasileiro de Mandioca

Autoridades, cientistas, empresários e produtores rurais participaram, na noite de ontem segunda-feira (12), no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, da abertura do XVII Congresso Brasileiro de Mandioca e do II Congresso Latino-Americano e Caribenho de Mandioca, os dois mais importantes eventos voltados à mandiocultura no Brasil e no continente, que ocorrem pela primeira vez no Pará. Na ocasião, o Governo do Estado lançou o Pró-Mandioca, que envolve diversos órgãos de fomento e assistência técnica, com a meta de alavancar a produtividade paraense em pelo menos 33%.
O Pró-Mandioca foi elaborado em conjunto entre poder público, instituições de fomento e de pesquisa e produtores. O programa prevê o controle integrado de pragas, plantio direto, uso de variedades tolerantes à podridão, roça sem queima, calagem e adubação, entre outras. É a sistematização das ações hoje executadas, promovendo o encontro da prática no campo com o conhecimento científico.

“Mais de 90% da produção de mandioca no Pará é proveniente da agricultura familiar. O programa, portanto, tem como objetivo garantir que esse produtor possa incrementar a produtividade, gerando mais renda e consequente melhoria da qualidade de vida”, disse o secretário de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz. “Essa cultura pode ser a principal arma no combate à fome no mundo, já que se trata de um produto de cultivo relativamente fácil e alto grau nutritivo”, continuou.

Durante a abertura dos congressos, autoridades, produtores e técnicos que trabalham para o desenvolvimento da cadeia produtiva da mandioca receberam certificados pela contribuição. “O tema é de extrema importância não apenas para os paraenses, que consomem a mandioca diariamente, em suas diversas formas, mas para o Brasil e até mesmo para o mundo. 

É a mão calejada do produtor rural que tem sustentado a nossa economia neste momento de crise. Para avançar mais, precisamos desse momento em que o conhecimento acadêmico encontra o saber do homem do campo”, frisou o presidente da Assembleia Legislativa, Márcio Miranda, um dos homenageados.

A representatividade da produção paraense e os investimentos feitos pelo Estado na agricultura familiar foram destacados pelo governador em exercício, Zequinha Marinho, na abertura oficial dos congressos, cuja programação técnica começou pela manhã, com minicursos sobre o melhoramento genético da mandioca, manejo de solo e identificação de insetos e ácaros, entre outros temas. 

“Temos terra boa, clima favorável e gente trabalhadora. Não à toa somos o maior produtor nacional, mas podemos avançar e obter melhores resultados com a aplicação de novas técnicas de manejo e de processamento da planta” asseverou.

O congresso internacional tem como proposta divulgar as mais recentes tecnologias para o cultivo da raiz, considerada um produto de alto potencial agrícola para acabar com a fome no mundo. Foi o que disse na palestra de abertura do evento, o representante no Brasil das Organizações das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Alan Bojanic. 

“Nosso desafio é produzir alimento para a população mundial, cujo índice de crescimento é de 80 milhões de pessoas por ano. Hoje, dos mais de sete bilhões de habitantes, 800 milhões vivem em situação de fome no mundo, 200 milhões só na África subsaariana”, informou Bojanic.

Formação
Na programação científica dos congressos, foi realizado na manhã desta segunda-feira, 12, o minicurso sobre a cadeia produtiva da mandioca com foco no processamento, ministrado pelo diretor técnico da Emater, Rosival Possidônio, com presença de centenas de técnicos e produtores.

Possidônio mencionou importantes aspectos do processamento do produto e lembrou que 
o padrão oficial para a farinha de mandioca é regulamentado, para fins de comercialização no mercado, através de portaria, que dá as características para identificação, qualificação, apresentação, embalagem, armazenamento e transporte do produto, pelo Ministério da Agricultura e Abastecimento (Mapa).

Ao falar das boas práticas de fabricação enumerou resultados no processo de qualificação dos produtos que permitem segurança alimentar, diminuem incidência de reclamações entre os consumidores, garantem mais competitividade no mercado, entre outros benefícios. Disse que um programa de boas práticas deve considerar as instalações físicas, potabilidade da água (condição obrigatória para todas as finalidades dos tratos com a mandioca), além de limpeza e salinização, pragas, entre outros aspectos.

Explicou aos participantes que as farinhas são classificadas por tecnologias de fabricação, em grupos (farinha d’água, farinha seca e farinha de mandioca bijusada); se classificam por coloração, em classes de farinha (branca, amarela e de outras cores), e por qualidade, as farinhas se classificam em tipos (farinhas tipos 1, 2 e 3).

Agemiro Araújo é produtor de farinha em Brasil Novo e vende a maior parte da sua produção direto ao consumidor, em Altamira, na feira da cidade. “Vim aqui em busca de mais conhecimento para melhorar nossa produção familiar, principalmente na produção de fécula”.

Luciano Nogueira, que é engenheiro florestal, destacou a importância do evento. “Permite, entre outras oportunidades, a possibilidade de trocas de informações das experiências que ocorrem em outros lugares”. Para ele, “esse fator é essencial para a promoção do nivelamento do conhecimento”.

Diversidade
Herança indígena do cultivo ao processamento e incorporada à alimentação ao longo de séculos, a mandioca é uma espécie típica da Amazônia. “A mandioca foi domesticada na América Tropical a partir de ancestrais silvestres. Essa domesticação deu-se provavelmente na região sudoeste da Amazônia, o que é corroborado por recentes análises genéticas. 

Os resultados de pesquisas arqueológicas revelam que, há pelo menos quatro mil anos, o cultivo era bastante difundido na região”, ilustra a pesquisadora Márlia Coelho, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que aborda no congresso, nesta terça-feira (13), às 8h, o tema “A importância das comunidades tradicionais para a cultura da mandioca e a soberania alimentar”.

Hoje a mandioca é a base da alimentação na Amazônia, mas ela é tão versátil que o uso se expandiu e saltou dos pratos de comida para setores como a indústria. Na área de exposição dos congressos, no segundo andar do Hangar – onde é possível ver ainda uma exposição com fotografias de Walda Marques –, há uma amostra desse aproveitamento múltiplo. 

Em 26 estandes, produtores e empresas apresentam produtos e serviços voltados à cadeia produtiva. No local também é possível visitar o Museu da Mandioca, que simula uma casa de farinha tradicional.

Uma das expositoras é a agricultora Júlia Serrim, 54 anos, do município de Portel, na ilha do Marajó. Ela levou ao congresso a farinha que produz e que, há 15 anos, é a única fonte de sustento da família. “Sempre participo do Congresso Brasileiro de Mandioca, para conhecer as novidades sobre o cultivo e aprimorar a gestão do meu negócio. 

Eu e as 15 famílias da nossa comunidade recebemos total apoio da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará), sem a qual muitos dos nossos avanços não seriam 
possíveis”, contou.

A produtora Gisane Rodrigues, 35 anos, levou para o congresso as farinhas que ela e a família produzem em Bragança, no nordeste paraense. Além da tradicional farinha lavada – uma iguaria do município –, a Sabor de Bragança comercializa farinha com charque, jambu, açaí e camarão, entre outras. “Tivemos a ideia de dar sabores diversos ao produto. O processo de manipulação reúne técnicas artesanais e mecanizadas, tudo para imprimir ao nosso produto a melhor qualidade”, assinalou.

Nem só a farinha, porém, nasce da mandioca. A artesã Suelen Reis, 37 anos, de Belém, foi ao congresso para apresentar biojoias produzidas a partir das folhas da planta. Os acessórios pitorescos fizeram tanto sucesso que ela já comercializa as peças para fora do Estado. “Aproveitei a valorização da mandioca e decidi usar partes dela para produzir brincos e colares que são moldados com resina. O resultado é uma técnica única que imprime resistência e beleza aos itens que produzo”.

Expoente
Maior produtor brasileiro de mandioca, com cinco milhões de toneladas por ano, em uma área plantada de 300 mil hectares, o Pará vive o desafio de substituir a defasagem tecnológica por novas técnicas, que incluem mecanização, uso de mudas mais resistentes a intempéries e doenças, adaptadas à região, e a substituição da chamada roça de toco, mais agressiva ao solo, por plantios sustentáveis.

A produção está presente nos 144 municípios paraenses e serve, basicamente, para subsistência. Uma cadeia produtiva que envolve, do plantio à comercialização, cerca de 300 mil pessoas. São agricultores, atravessadores e comerciantes, que juntos movimentam R$ 1 bilhão na economia local por ano.

Serviço:
O XVII Congresso Brasileiro de Mandioca e o II Congresso Latino-Americano e Caribenho de Mandioca seguem até sexta-feira (16), no Hangar – Convenções e Feiras da Amazônia, em Belém. A programação completa pode ser consultada aqui.

Leia mais:
* Colaboração: Edna Moura - Ascom Emater e Leni Sampaio - Ascom Sedap
Por Luiz Carlos Santos - Agência Pará

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