segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Anorexia acomete milhares e pode levar à morte

 Ana Carolina Nogueira, coordenadora do curso de Psicopatologia do IPOG, comenta impactos da doença, que possui relatos clínicos desde 1695. A atriz Bruna Marquezine relatou nas redes sociais ter tido problemas com distúrbios alimentares.
Recentemente a atriz global Bruna Marquezine desabafou nas redes sociais após sofrer ataques de fãs por seu corpo “magro” – que conforme a atriz, a opção foi motivada por um personagem em que fez na última novela em que participou (Deus Salve o Rei). Mas os comentários, e a posição de Marquezine, desencadearam nas redes um tema importante para a sociedade atual: a anorexia – um distúrbio alimentar que leva a pessoa a uma obsessão pelo seu peso e por aquilo que come.
 No desabafo, a atriz admitiu que em certo momento de sua vida, achava que era preciso realmente emagrecer. E por isso adotava medidas drásticas, como o uso regular de laxantes. “Eu tomava laxante todos os dias, por mais de três meses. Junto com tudo isso eu tive depressão, não só por isso, mas principalmente por esses motivos, questões de autoestima, por não me aceitar, não me achar bonita o suficiente. Consequentemente eu não me achava boa o suficiente para nada”, relatou a atriz.

De longa data
A psicóloga Ana Carolina Nogueira, coordenadora do curso de Psicopatologia - Configurações do Sofrimento Psíquico na Contemporaneidade do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG) relata que a anorexia, a bulimia e demais transtornos alimentares não são fenômenos da modernidade ou pós modernidade. “Há relatos e descrições clinicas da anorexia desde 1695”, afirma a psicóloga. Este distúrbio era, na época, relacionado às questões místicas da sociedade, como jejuns religiosos e promessas de votos de fome.

Distúrbio
A anorexia é o transtorno psiquiátrico que mais mata, segundo estudos publicados pela Arch Gen Psychiatry (2011). Ainda de acordo com o estudo publicado, o suicídio possui uma conexão com este distúrbio. A professora também pontua que mais de 90% dos pacientes com anorexia e bulimia são do sexo feminino. “Geralmente são pacientes descritas pelos pais como moças perfeccionistas, estudiosas, dedicadas, boas filhas...” explica.

A psicóloga pontua que o âmbito social que cobra uma perfeição estética, é o cenário propício para o surgimento dos transtornos alimentares. “Hoje temos um panorama que facilita esse tipo de aparecimento de sofrimento psíquico”.

De acordo com a especialista, o quadro ocorre prevalentemente na adolescência, um período de vulnerabilidade da personalidade social onde procura-se um grupo para que se estabeleça uma identidade. “Quando o adolescente procura um grupo social para se estabelecer, acaba se deparando com a cobrança de um corpo perfeito, determinado padrão de vida e a felicidade em tempo integral. Isso resulta em uma cobrança pela perfeição”.

Ao tentar se aproximar da imagem que é vendida socialmente, esse adolescente acaba tendo que perder um pouco mais para atingir os padrões impostos erroneamente. “É então quando eles acabam sofrendo com esses problemas, porque sempre há alguém mais magro, mais gordo, mais rico”, argumenta a especialista Ana Carolina.

A psicóloga ainda explica que esses transtornos alimentares podem surgir na medida em que dietas severas fogem do controle. “Geralmente esses distúrbios começam após dietas muito restritivas. Onde essa busca por sempre perder mais peso acaba saindo do controle da pessoa”. Ana Carolina conta que é comum que decorrente a este distúrbio gere-se um transtorno de imagem corporal, onde o indivíduo não mais enxerga a imagem real de seu corpo e pensa que não emagreceu o suficiente.

Tratamento
Para o tratamento da anorexia, Ana Carolina destaca que é preciso um acompanhamento multidisciplinar, para que se atinja efeitos consideráveis no tratamento. “É um quadro que envolve muitas outras áreas, por isso, na esfera pública observamos avanços melhores no tratamento, uma vez que é mais fácil o contato entre os multiprofissionais”, avalia a psicóloga.

Essa equipe deve ser composta principalmente pelos seguintes profissionais: psiquiatras, psicólogos, nutricionistas, assistente social e clínico geral. “Com profissionais isolados, o fracasso é muito maior, pois não é possível realizar todo o acompanhamento necessário”, adverte Ana Carolina. (Luiz Claudio Fernandes)

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