Coluna 1

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Picaretagem: Igreja oferece cura impossível para depressão em três minutos

Tratamento de doenças mentais pode demorar e requer acompanhamento médico. A Igreja Universal do Reino de Deus garante que é possível curar a depressão - grave doença da mente que leva milhares de pessoas ao suicídio todos os anos - em três minutos. Sem remédios, sem terapia. Mas isso, afirma o psicólogo e professor da Unama Manoel de Cristo, é impossível. Pode ser considerado irresponsável e perigoso, pois o tratamento da depressão não é tão simples. Requer tempo, paciência, acompanhamento médico, apoio familiar e mudança em hábitos de vida. Essa promessa da igreja vem sendo anunciada em várias unidades da Universal em Belém. Há cartazes anunciando que o evento milagroso e rápido contra a depressão. 
 Nos cultos, os pastores convidam a levar pessoas que estejam com sintomas da doença e pensando em suicídio. Uma pessoa que realmente esteja num estágio avançado da depressão, ao ponto de ter pensamentos suicidas, pode ser gravemente prejudicado com expectativas de uma cura que pode não ser tão simples. Ou até mesmo abandonar um tratamento em curso.

Pensamentos suicidas e sentimentos de tristeza prolongada não são fraqueza, covardia ou problema religioso. São sintomas de doenças da mente e que podem ser tratados. Socialmente, há uma repulsa ou desprezo por pessoas com depressão, transtorno de ansiedade, fobias sociais e pensamentos suicidas. Tudo por desconhecimento e desinformação. Pessoas com problemas na saúde mental são vistas como "fracas", "covardes", "sem Deus no coração" ou simplesmente como "doidas". Não é nada disso.

A depressão é reconhecida, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como a quarta principal causa da incapacitação. Cada vez mais pessoas se afastaram do trabalho ou da vida escolar por causa da doença. Tem se falado cada vez mais sobre essa e outras doenças mentais, como a ansiedade, ao passo que tabus vêm sendo quebrados sobre a saúde mental. Assim, mais pessoas estão procurando ajuda. E por isso se fala ainda mais a respeito.

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Sintomas e diagnósticos

Geralmente, os primeiros sintomas aos quais as pessoas devem estar atentas, para desconfiar se um quadro depressivo ou de que outras doenças mentais estão se formando são: cansaço extremo, indisposição, angústia, tristeza prolongada, ansiedade exagerada, baixa autoestima, insônia, mudanças de apetite e peso, desinteresse em atividades que antes eram interessantes, dificuldade de concentração, memória fraca, medo constante, sentimentos de culpa, afastamento social, pensamentos pessimistas frequentes e o pensamento em suicídio. Todos no mínimo durante duas semanas seguidas.

Todos esses sintomas, explica Manoel de Cristo, precisam ser avaliados por um psicólogo ou psiquiatra. Às vezes esses sintomas são detectados na clínica geral e geram o encaminhamento para médicos especialistas na saúde mental. Tristeza vinculada a outros sintomas associados ou a uma experiência traumática, pode não ser depressão, mas um estágio de determinada experiência.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito a quem está sofrendo com pensamentos suicidas. É possível conversar de forma sigilosa pelo telefone 141, pelo Skype, pelo chat do site do CVV, por e-mail. A pessoa que estiver precisando escolhe o meio que achar mais conveniente. O CVV tem atendimento 24 horas por dia. Só que é apenas uma frente de atendimento, que não exclui um tratamento médico regular.

"Existe um protocolo de tratamento, tanto do ponto de vista médico, psicológico e psiquiátrico. Não existe cura milagrosa e é preciso tomar muito cuidado. Se fosse fácil assim, os profissionais estariam ricos. A duração do tratamento é muito variável, dependendo de muitos fatores e contexto de cada paciente, além do grau da doença. Mas pode durar de um mínimo de semanas e se prolongar por alguns anos. Não existe cura fácil. Se perde tempo com essas ofertas de tratamento milagrosos e pode ser perigoso. Muito cuidado", esclarece Manoel.

O psicólogo explica que, historicamente, coisas que a ciência tinha dificuldade em lidar, eram atribuídas a fatores religiosos ou espirituais. Mas assegura que essa relação entre doenças mentais e falta de fé ou religião não existe. No entanto, esse senso comum segue desafiando até evidências. Líderes religiosos, de crenças diversas, já relataram problemas com depressão ou ansiedade. Cabe lembrar que o padre Marcelo Rossi e o padre Fábio de Melo relataram, abertamente, o enfrentamento de doenças mentais.

"Uma pessoa, quando está deprimida, perde a crença no mundo, na vida e a possibilidade de que qualquer coisa boa possa acontecer com ela. Daí os pensamentos e sentimentos autodestrutivos, autodepreciativos. Mas a religião pode, sim, ter influência positiva no tratamento. Só que os líderes de cada religião precisam compreender que se trata de uma doença e que precisa ser tratada. Infelizmente, não é o que vemos com frequência", observa o psicólogo.

O que diz a Igreja Universal disse a respeito

A Redação Integrada de O Liberal entrou em contato com a Unicom, departamento de Comunicação Social e de Relações Institucionais da Universal. Foi questionada sobre do que se tratava o evento "Fique livre da depressão em 3 minutos. Sem remédios, sem internação". E como a igreja pretendia promover essa cura milagrosa, tão rapidamente. Contrariando a própria campanha feita dentro das igrejas, em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus respondeu:

"Ao defender a Fé Bíblica no auxílio aos doentes - inclusive vítimas da depressão - a Igreja Universal do Reino de Deus sempre alerta que jamais os tratamentos médicos devem ser ignorados. Mas a Universal tem milhares de casos de cura da depressão pela Fé. Aliás, existem inúmeros estudos científicos que comprovam a afirmação bíblica de que a Fé́ cura doenças".

A nota é concluída fazendo uma referência a uma matéria publicada pelo G1. "O Instituto Dante Pazzanese, por exemplo, afirma que a prática regular de atividades religiosas ajuda a combater a depressão". Nenhum dos demais questionamentos foram respondidos.
O Conselho Regional de Psicologia do Pará e Amapá (CRP10) ficou de se posicionar sobre o caso. No entanto, ainda não houve resposta.( Victor Furtado - ORM)

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